FIRST LOVE 2 — V

17:12

12 anos se passaram desde o dia em que Henry encontrou, no porão, um desenho dele mesmo ao lado de Hyerin. Após tê-la reencontrado e se apaixonado novamente, suas vidas tomaram o rumo esperado: formaram-se, casaram-se, tornaram-se pais. Nesta sequência de “First Love”, o casal bochechas vive repleto de lembranças e boas memórias de tudo aquilo que passaram juntos. Uma em específico, porém, nunca foi mencionada ao marido por parte da mulher. Por que aquele nome nunca foi mencionado antes?


V.

Era fim de semana e, como de costume, Peter e seu filho se faziam presentes na casa dos Lau. Apesar de ter o dobro da idade dos primos, Peter Júnior se dava bem com os demais, afinal, sendo o mais velho, era facilmente idolatrado pelos herdeiros daquela casa que faziam tudo que estivesse ao seu alcance – ou fora dele – para agradar o loiro.

Típico de uma criança da família Jones.

Após o almoço, Hyerin saiu para fazer compras, decidindo levar os três furacões consigo, o que a faria se arrepender logo em seguida, deixando a louça e a bagunça da cozinha para os homens que não negaram – já que todo mundo sabia quem mandava por ali e obviamente era Hyerin Lau. A arrumação da cozinha demorou mais tempo do que deveria, pois Peter – apesar de estar naquela casa com frequência – insistia em fazer as coisas com desleixo, irritando Henry. Após terminar de lavar a louça e limpar a pia, notou que tudo tinha sido guardado de forma errada e o loiro estava mexendo no celular, despreocupado. Cerca de meia hora depois, após um longo discurso e a cozinha arrumada, os amigos estavam no quintal da casa, bebendo cerveja e recolhendo brinquedos espalhados, conversando sobre resultados de jogos de hóquei, quando um assunto foi retomado por Henry. Afinal, era a primeira vez em que estavam sozinhos desde a menção daquele nome.

- Certo, mas e esse tal de Liam? – Disse após colocar o último brinquedo dentro de uma caixa, sentando-se na espreguiçadeira ali localizada. Após um longo gole, colocou a garrafa sobre o apara copos.
Peter deixou os ombros caírem.
- Cara, você realmente vai trazer esse assunto? – Repetiu o gesto, sentando-se na cadeira ao lado, esticando as pernas e cruzando-as. Deu um gole na bebida, mas ao contrário do outro, a garrafa foi deixada ao lado do suporte.
Henry bufou e rolou os olhos, colocando a bebida do outro no apara copos, mesmo sabendo que, logo em seguida, ele repetiria o desleixo.
Se Hyerin ali estivesse, o loiro teria levado um sermão e tanto.
- Você era amigo do ex dela que, pelo que contou aleatoriamente, –  Peter rolou os olhos com a ênfase. – estava disposto a ir atrás dela assim que chegou.
- E isso me dá o direito de te contar por quê...
Henry bufou.
- Porque eu sou seu amigo sabe Deus há quanto tempo. Você deveria ter me contado, Peter.
- Não, eu não deveria. – Foi rápido em responder, cortando o amigo. – Henry, você sempre foi racional nesses assuntos e agora está sendo um babaca.
- Eu não estou sendo babaca. – A ênfase foi dada já que a palavra não costumava fazer parte do vocabulário. Não mais.
- Está sim, na verdade, você sempre foi. – Deu de ombros, o outro o encarou sério. – Cara, é um assunto da Hyerin. Se ela não te contou de um relacionamento com o Liam, ela deve ter um puta motivo para nunca ter contado.

Henry estava cego pela dúvida. O fato daquele nome nunca ter sido mencionado nos últimos dez anos o deixava intrigado. E se ela não o tivesse esquecido e esse fosse o principal motivo para o assunto ter sido guardado? E se ela só tivesse entrado no relacionamento como ele para esquecer o ex?

- Você é meu amigo, Peter. Sempre foi meu amigo, deveria ter me contado. – Disse por fim, bebendo o último gole da garrafa que segurava.
- Mano, para de ser escroto. – O loiro ergueu a voz. – O cara sabia que eu te conhecia, veio falar comigo, eu até bati nele! Você deveria era me reembolsar pelo olho roxo que ganhei naquela semana. – Henry rolou os olhos.

Um silêncio se fez presente entre eles. Cada um encarava o céu que saía de um azul claro e ganhava diversos tons de laranja para, logo em seguida, escurecer aos poucos. Peter não conseguia entender o porquê de tanto alarde com aquele assunto. Imaginava que àquela altura, o amigo já tivesse ciência da existência de Liam. Mas, não era como se pudesse invadir a privacidade de Hyerin e expor algo que, clara e obviamente, ela não queria. Ele poderia ser um imbecil com a maioria das mulheres que conhecia, mas Hyerin era quase uma irmã. Não tinha esse direito.
- ‘Tá bem, cara, foi mal se isso te incomoda, mas eu não quero me meter entre vocês. – Pelo tom de voz, ele parecia dar seriedade ao assunto. – Você sabe que eu sempre torci por vocês, apesar de toda a demora pra conseguir ficar com ela, né, seu lerdo da porra. – O outro riu, negando com a cabeça. – Foi por isso que eu não te contei.
Henry apenas o encarou, antes de pegar mais duas garrafas de cerveja, abrindo-as e entregando uma ao outro.

- Espera, mano. Isso é coisa da Hyerin, se o Liam ficou puto comigo e me bateu por impedir de ir atrás dela, imagina como não deve ter sido o relacionamento dos dois, né. – Aceitou de bom grado e deu um longo gole. – E, sei lá, se ela não tocar no assunto, esquece essa merda, ela escolheu você.
- Desde quando você é tão entendido sobre relacionamentos? – A expressão era um misto de confusão e descrença.
- Desde sempre, cara. – O loiro pareceu pensar. – Mas é meio teórico. – Henry negou com a cabeça e então suspirou.

Detestava admitir aquilo, mas Peter estava certo. Precisava dar tempo ao tempo e deixar que sua esposa compartilhasse o assunto quando e se desejasse. Aquilo estava matando-o há dias, mas infelizmente, precisaria esperar.

- Mas então, quer dizer que o senhor apanhou única e exclusivamente para eu não perder minha chance com a Hyerin? – Ele arqueou uma sobrancelha ao dar mais um gole.
- Você não beijava ela nunca, cara! – Elevou a voz em indignação. – De nada, viu. – Deu de ombros, Henry riu.

- Isso foi o mais perto que você chegou de dizer que me ama e não vive sem mim.

- É, você sempre foi o mais meloso da nossa relação. – Riu ao dar mais um gole e usar da mão com a garrafa para apontar o amigo. – Quase chorou só com a possibilidade de viver sem o tio Peter aqui.
- Ah, não. Essa história de novo...

3 anos atrás

Era tarde de domingo e Henry, Hyerin e Peter resolveram levar seus pequeninos para o parque de diversões que estava na cidade há uma semana. Por estar temporariamente localizado em uma das praças do centro, era possível não só usufruir de todos os brinquedos – dos mais simples ao mais mortais – como também apenas sentar-se e apreciar a vista. Sendo assim, Hyerin organizou um pequeno piquenique, onde passariam horas conversando, comendo – e se divertindo.
O lugar estava cheio e, por isso, acabaram “acampando” próximo da entrada, tendo a grande massa de pessoas indo e vindo bem em seu campo de visão. Entretanto, não se deixaram abater, afinal, estavam próximos de várias barracas de acerte e ganhe, o que logo chamou a atenção do pequeno Peter Júnior, ainda com oito anos.
- Pai! Pai! – O loiro puxava o braço do mais velho, chamando sua atenção. – Deixa eu ir brincar ali? Posso ganhar aquele urso grande.
Peter se abaixou, ficando mais próximo do filho e observando o grande cachorro de pelúcia. Ele suspirou e fez uma expressão séria, como se cogitasse a possibilidade, recebendo vários “por favor” do filho, pulando ao seu lado. Os Lau observavam a cena rindo.
- ‘Tá, eu deixo. – O pequeno deu vários pulinhos, segurando a mão do pai com força e puxando-o para a barraca. Peter apenas acenou para os amigos, sendo guiado pela sua versão mirim.
- Eu preciso admitir, nunca imaginei que Peter seria um bom pai... – Hyerin tinha o pequeno Mike de apenas três anos no colo e assistia o loiro pagar pelas horas de diversão do filho com um largo sorriso no rosto.
- Olha, você não é a única a pensar assim. – Henry riu, tendo uma expressão orgulhosa ao fitar o amigo.
Nesta época, Elizabeth ainda não fazia parte da família Lau.
Enquanto Peter Júnior segurava diversas argolas nas mãos e encarava os pinos com extrema concentração, seu pai caminhava de volta ao grupo, gritando avisos ao pequeno e dizendo que estaria de olho nele, recebendo um grito de “ok” em resposta. Ao que chegou, sentou-se entre o casal, pegando alguns biscoitos, praticamente devorando-os. Hyerin negou com a cabeça.
- Vai com calma! Não precisa comer com pressa, tem muito ainda. – Repreendeu ela, fazendo-o rir.
- Lembre-se que seu filho é essa bolinha aí, não eu. – Peter apontou o pequeno Mike, ainda no colo dela, que observava a roda gigante com olhos curiosos.
- Mamãe... – Chamou ele, virando-se para ela. – Aquele negócio é alto, né? Dá pra pegar em nuvem, eu acho... – Ele apontou o brinquedo, que foi atenção dos adultos por poucos segundos.
- É sim, muito alto. – Hyerin deu ênfase. – Mas eu não sei se dá pra pegar nuvem, Mike.
- Quer fazer o teste? A gente vai lá. – Sugeriu Henry, recebendo um olhar sério da mulher e uma reação animada do filho, que se desvencilhou dos braços da mãe e correu até ele.
- Ele tem três anos, Henry. Você não vai leva-lo numa roda gigan...
- MAS EU QUERO PEGAR NUMA NUVEM! – Mike fez bico.
- Viu?! Olha só o que você fez! – Ela bufou.
- Eu já disse que curto bastante estar no meio de vocês sempre que coisas do tipo acontecem? – Peter disse animado e sendo ignorado.
- Calma, Hyerin! – Henry já se levantava, apesar do olhar dela, tendo o filho nos braços que gritava empolgado com a ideia de tocar numa nuvem. – Tem uma menor logo ali. – Apontou com a cabeça, fazendo-a arquear uma sobrancelha. – Você não achou que eu seria assim tão irresponsável, achou?
Ela cruzou os braços, fazendo-o bufar.
- Papai, a gente vai no negócio grande? Eu quero pegar uma nuvem... – Mike tinha um tom dengoso, Henry o fez cócegas, que riu.
- Claro que vai! Lá de cima a gente tenta pegar as nuvens, vamos! – E, caminhando a passos largos, o homem rumou o brinquedo, tendo o menino batendo palmas em seu colo.
Hyerin ainda tinha os braços cruzados, não aprovando aquela ideia, mesmo vendo o marido se dirigir ao brinquedo menor, o qual era permitido estar com crianças pequenas. Os ombros caíram e ela bufou, era seu primeiro filho e ela teimava em tentar protege-lo demais.
- Relaxa, cara. – Peter quebrou o silêncio, apesar de falar com a boca cheia. – ‘Cê sabe que o Henry é cuidadoso, não vai ter problema nenhum.
- É, talvez você esteja certo. – Ela mudou o foco de sua atenção, procurando por alguns dos doces que havia trazido. – Mas você não tem tanta moral assim pra falar de mim...
- É o quê? – O tom foi de incredulidade, Hyerin riu.
- Você é super protetor com o Júnior. – Ela fez cara de óbvio.
- Claro que não. Eu deixei meu filho de oito anos brincando sozinho.
- Numa barraca distante há meio metro e olha pra lá a cada dois minutos. – Hyerin riu, já que mal acabava de dizer aquilo e Peter já olhava novamente a barraca, tendo PJ correndo na direção deles, com um coelho de pelúcia nas mãos e um bico nos lábios.
Enquanto Peter, Hyerin e PJ discutiam sobre a vitória do garoto – e que para ele era uma derrota, afinal, queria o cachorro maior – e Henry afivelava com cuidado o cinto do filho e a proteção do acento, quase prontos para iniciarem a jornada no brinquedo, um homem de jaqueta preta larga, fechada e um olhar perturbado no rosto entrava no parque, olhando os lados freneticamente e acreditando não estar chamando a atenção de ninguém.
Ele caminhou até próximo das barracas onde PJ brincava antes e, com pressa, abriu o zíper da jaqueta, tirando de lá um objeto preto e escondendo no bolso da calça, tampando com a mão o restante que sobrava para fora do tecido. Peter, que ria de algo que o filho falava, ergueu o olhar rapidamente e, por falta de sorte, encarou o recém chegado, arregalando os olhos claros e sentido todo o corpo arrepiar. Ao notar o olhar sobre si, o homem encarou Peter e, nervoso, tirou a mão que cobria o objeto misterioso, dando ao loiro a certeza do que se tratava.
- Hyerin, eu preciso que você saia com o PJ, agora. – Ele disse baixo, a mulher não entendeu. – Não olhe para onde eu estou olhando, apenas faça o que eu disse. Agora. – Convicto, ele a olhou com preocupação e ela apenas assentiu. – Finja que não te falei nada.
Ela engoliu em seco e fingiu animação, chamando o sobrinho para comprar sorvete ao seu lado, coisa que PJ não recusou. Bastou que os dois dessem as costas para que o homem retirasse a arma do bolso e, apontando para cima, disparasse dois tiros, assustando todos a volta. Hyerin olhou para trás, alarmada, mas Peter não a seguia. Ela gritou seu nome diversas vezes, mas ele a ignorou, fazendo-a pegar o menino nos braços e rumar os fundos das barracas. Agachada, ela o abraçou forte.
- Tia Hye, o que ‘tá acontecendo?  - Perguntou o menino, assustado. – Cadê o meu pai?
- Ele já vem, meu amor, ele já vem. – Ela acariciava os cabelos loiros, beijando-lhes o rosto, apesar de estar tão abalada quanto ele.
De volta a Peter, após ter atirado para cima, o homem agora tinha a arma apontada para o loiro que tinha os braços estendidos e o olhar preso ao rosto do desconhecido.
- ‘Tá encarando o quê? – Perguntou o homem, intimidando-o.
- Nada. – Ele foi rápido em responder. – O que está tentando fazer? É um assalto? 
O homem gargalhou de forma medonha.
- Não, meu jovem. Eu não quero dinheiro. – O rosto exibiu um sorriso amargurado. – Eles já me deram uma quantia enorme de dinheiro, mas que de nada adianta. Um dinheiro que não vai trazer minha menina de volta.
 Peter demonstrou confusão, fazendo o homem negar com a cabeça.
- Eles realmente abafaram o caso, não é? – Ele riu. – Tão típico. – A arma foi novamente para cima e mais dois disparos foram dados. Não muito longe dali, Hyerin apertou ainda mais PJ em seus braços, ouvindo-o chamar o nome do pai algumas vezes. – Deixe-me refrescar a memória de vocês, então. – Agora ele gritava, fazendo algumas pessoas gritarem ao seu redor e correrem para longe dele.
Na entrada, dois homens com crachás do parque fechavam as portas, impedindo mais pessoas de entrarem. Logo em seguida, através de um rádio, um deles avisou a central administrativa que chamassem a polícia o quanto antes, o parque sofria um atentado a mão armada e ainda não se sabia quantos mais estariam espalhados.
- No ano passado, este mesmo parque estava em Vancouver. – O homem falava em alto e bom som, com um sorriso melancólico nos lábios. – Daphne, minha filha de seis anos, estava animada para sua primeira vez num parque de diversões. Minha esposa e eu a deixamos ir na mini montanha russa, permitida apenas para crianças, eu não pude acompanha-la, então apenas assisti... – Com as mãos baixas, agora ele não deu de ombros. Os olhos se encheram de lágrimas e a arma foi mais uma vez direcionada a Peter, o único em seu campo de visão. – Então apenas assisti um brinquedo montado de qualquer jeito se soltar na primeira curva! Assisti a minha menininha cair junto com tudo aquilo! Daphne teve um ferro atravessado no peito e morreu na hora.

Peter sentia o coração bater forte, quase saindo do peito. Aquilo era realmente horrível e não conseguia imaginar a dor daquele homem em perder sua filha daquele jeito. Ele mesmo estava naquela situação, pois temia pela vida de Júnior.
- Eu sinto muito. – Disse o loiro, ainda abalado. – Eu sinto muito, senhor, mas nós não temos culpa.
- Eles também sentiram muito. – Ele riu, debochado e sombrio. – E, Daphne também não tinha.
Enquanto a conversa acontecia, Henry se via preso no alto do brinquedo. Quando os primeiros tiros foram disparados, ele apenas ignorou, acreditando ser das barracas de tiro ao alvo. Porém, mais dois disparos ocuparam o espaço, seguidos de diversos gritos das pessoas lá embaixo. Logo, o brinquedo parou. Ele se apoiou na grade de segurança e olhou para baixo, todas as cabines vazias foram mantidas próximas do chão, ele estranhou. Estava prestes a gritar ao condutor e perguntar o que acontecia, quando os olhos encontraram uma cena que jamais esqueceria. Seu melhor amigo de infância estava na mira de uma arma.
Henry engoliu em seco. As mãos apertaram a barra da grade de proteção com força e os olhos procuraram pela esposa freneticamente, mas não a encontraram. Deduziu que ela estivesse escondida, já que Júnior também não estava em seu campo de visão. Virou-se e viu todas as cabines ocupadas atrás de si, deduzindo que o condutor parou o brinquedo de propósito, deixando-os fora do perigo de serem atingidos, caso o homem atirasse.
- Papai, por que a gente parou? – Mike perguntou, tirando-o de seus pensamentos.
- É pra gente ficar perto das nuvens por mais tempo, campeão. – Os olhos não saíam do amigo que, pela primeira vez que Henry se lembrava, demonstrava medo.
- Ah! – Mike estava alheio ao que acontecia, encarando o céu. – Mas as nuvens tão longe ainda, ó. – Ele fez bico. – O céu é longe, né.
- É sim, Mike. Mas pelo menos a gente ‘tá menos longe agora. – Foi então que ele percebeu que tremia. A língua umedeceu os lábios e ele praguejou baixo, impedindo o filho de ouvi-lo, desejando de todas as formas sair dali e fazer alguma coisa. Estava se sentindo um completo inútil, principalmente porque, daquele ângulo, tinha toda a cena de forma exclusiva, o que só piorava.

- Ninguém aqui tem culpa, cara. – Peter tentava manter a calma, mas era visível em seu rosto o pânico que o consumia. – Você recebeu a indenização, infelizmente não foi o suficiente para salvar sua filha, mas eles não saíram impunes.
- A justiça deveria ter fechado essa espelunca! – O tom demonstrava incredulidade. – Como ousam permitir que ainda funcionem? – Era perceptível que ele tremia. – Minha filha morreu aqui. ELA MORREU AQUI.
O lugar estava em completo silêncio. Assim, Peter podia ouvir a sirene da polícia cada vez mais perto, tranquilizando-o um pouco. Ele só precisava ganhar tempo para que ninguém saísse dali ferido – ou morto. Ao respirar fundo, o loiro bolou um plano. E esperava com todas as suas forças que fosse o certo.
- Ok, eles têm culpa. – Ao falar, percebeu a confusão no olhar do outro. – Eu sou mais jovem que você, mas também sou pai. Eu entendo a sua dor.
- Você não perdeu o seu filho para me entender. – O homem ofegava diante do ódio que o consumia.
- Certo, eu imagino a sua dor. – Com as mãos abertas, ele pedia calma. – Mas vai valer a pena? Ferir outras pessoas não vai trazer sua filha de volta.
- É, não vai. Mas alguém entenderá minha dor. – A arma, gélida, mirava o peito de Peter, que engolia em seco. – Se não você, talvez os seus pais. Ou seu filho. – O homem deu de ombros. – Tanto faz.
Henry apertava a grade com tanta força que, àquela altura, poderia até entortá-la. Mike, alheio a tudo que acontecia lá embaixo, encarava o céu sorridente e, ao olhar o pai, percebeu que ele não fitava o mesmo que o pequeno.
- Papai, tá olhando o quê? – O menino fez menção de mudar o olhar, mas Henry foi mais rápido.
- Nada. – Disse com pressa. – Nada, campeão! Olha para o papai, tá?! Você quer brincar de ver desenhos nas nuvens? Aqui de cima é melhor. – Ele tentava sorrir, mas era em vão. O garoto, em sua inocência, sorriu largo e olhou o céu, apontando para uma nuvem em formato de cachorro. – Sim, parece mesmo. Aham. – Ele respondia sem nem mesmo encarar o céu, tendo como campo de visão o único lugar que desejava estar e não podia.
Ao lado do amigo.
Duas viaturas da polícia pararam em frente ao parque, chamando a atenção de Peter e do desconhecido que, no momento, arregalou os olhos e dava dois passos a frente, ainda com a arma apontada para Peter. Uma ambulância também sido chamada, por precaução.
- O que diabos a polícia faz aqui? – O homem perguntou, nervoso.
- Não fui eu quem chamou. Eu estive aqui o tempo todo. – Os policiais já entravam no parque, armados e com coletes, arrodeando o homem, que demonstrou mais pânico.
- Vocês vieram me prender? Esse lugar matou a minha filha e vocês vieram ME PRENDER? – Ele gargalhou, tendo em torno de quatro policiais cercando-o, enquanto um se aproximava de Peter, para protege-lo.
- Largue a arma. – Disse um deles. – Agora.
Assustado, o homem olhou ao redor rapidamente, recuando dois passos. Porém, diante do nervosismo, a arma que já estava engatilhada foi acionada sem intenção, disparando mais uma bala.
Hyerin sentia as lágrimas rolando pelas bochechas enquanto apertava o loirinho em seus braços cada vez mais forte, sentindo o pescoço molhado pelas lágrimas do menino que gritava pelo pai diversas vezes. Henry, ainda envolvido na brincadeira do filho que permanecia alheio aos acontecimentos, apertava o ferro com força quando a arma disparou, engolindo em seco e tendo um grito preso na garganta.
Peter estava caído.
Os policiais avançaram e pegaram o homem, agora assustado demais para reagir, deixando-se ser algemado e levado. Os paramédicos saíram assim que ouviram o tiro, correndo da direção do loiro e prestando o socorro.
Os segundos seguintes pareceram eternos para Henry que continuava parado do alto do brinquedo, até que o condutor finalmente o fez funcionar, parando quando os únicos ocupantes da cabine estavam próximo do chão. Ele ansiava sair correndo dali e ir em direção do amigo, mas tinha Mike ao seu lado e não queria que o pequeno assistisse aquela cena. Ele pegou o filho nos braços e saiu, rumando os fundos das barracas, lugar que ele deduziu onde Hyerin estaria, diante da proximidade. Em passos rápidos, ele a viu, agachada, com Peter Júnior nos braços.
- Graças a Deus. – Foi o que disse ela assim que o viu, abraçando o marido e o filho a mesmo tempo. Mike, inocente, queria contar a mãe a experiência no brinquedo de acabara de sair.
- Cadê o meu pai, tio Henry? – A voz de PJ saiu falha, enquanto ele puxava a camisa do outro. Mike foi entregue a mãe e foi a vez de Henry se agachar, segurando o rosto do menino e o olhando nos olhos.
- Papai vai ficar bem, PJ. – A mão afagou a bochecha infantil, secando algumas lágrimas. – Eu prometo.
Ao avisar que o acompanharia, Henry saiu, correndo e desviando as pessoas a sua frente, tendo o único objetivo de alcançar a ambulância. Eles estavam prestes a sair quando ele os alcançou, entrando e se sentando ao lado de um dos paramédicos.
Peter tinha sido atingindo de raspão no braço direito, mas não impediu de fazer certo estrago, havia sangue por toda parte. A camisa tinha sido cortada e uma enfermeira o atendia.
- Que susto do caralho. – Henry bufou, passando a mão nos cabelos. Peter riu, mas fez uma careta, já que a ação fez o ferimento doer.
- Pensou que ia ficar sem mim? – Ele encarou o amigo. – Porra, você ‘tá chorando?? Casar te deixou uma pessoa sentimental.
Os paramédicos riram baixo, fazendo o loiro arquear uma sobrancelha e Henry negar com a cabeça.
- Você passou maior tempo na mira de uma arma, seu imbecil. – Ele fungou ao terminar a fala. – Pode me zoar a vontade, a situação me obrigou.
Peter riu e encarou o braço ser cuidado por um dos paramédicos, enquanto o outro fazia anotações e ajeitava alguns equipamentos. A atenção se voltou para o amigo que no momento suspirava e limpava o rosto, quando os olhares se cruzaram.
E então eles sorriram, aliviados.
Era a forma que tinham de dizer o quanto estavam felizes, pois apesar dos pesares, o loiro permaneceria neste mundo.
E trazia uma história daquelas para se gabar.

- Viu? Você sempre foi o meloso de nós dois. – Riu ao levantar a manga da camisa e mostrar a pequena cicatriz.
- VOCÊ TOMOU UM TIRO, porra! – Ele negou com a cabeça, desistindo de uma vez por todas. Peter nunca daria a seriedade que um assunto ou situação precisava, já Henry, sempre fora emotivo demais. – O que você queria que eu fizesse? Começasse a rir?
- Ué, isso não é óbvio? – Deu de ombros. – Você devia ter pensado na quantidade de gatas que essa marca iria me render...

Era oficial. Peter Jones era um caso perdido.
O som de um carro estacionando chamou atenção dos homens e, logo em seguida, gritos infantis preencheram o local indicando a chegada da mulher com as compras. Os três pequenos surgiram no quintal, acalorando seus respectivos pais com abraços e diversas histórias contadas todas de uma única vez.
- PAI! O Mike derrubou uma prateleira inteira de biscoito. – Lizzy gritava, tentando chamar a atenção de Henry.
- É MENTIRA! – O mais novo cruzou os braços, emburrado. – O negócio já ‘tava caindo, aí eu peguei o biscoito e bum, caiu tudo...
- A Tia Hyerin quase teve um ataque, ficou toda vermelha. Eu quase morro de rir. – Peter Junior ainda ria, recebendo um olhar orgulhoso do pai. – Aliás, ela mandou dizer que é pro tio Henry e você, papai, irem ajudar a carregar as compras.
- Então quer dizer que casamento é isso? Lavar louça e carregar compras? Foi por isso que eu nunca me casei... – Disse já se levantando da cadeira, sendo seguido pelo amigo, enquanto ordenava o filho para ficar de olho nos outros.
- Sério? Eu jurava que você não tinha casado porque é desprovido de sentimentos. – Henry empurrou a cabeça do loiro levemente, que demonstrou estar ofendido com a fala.
        - Cara, isso... – Ele pensou por alguns segundos. – Faz todo o sentido, na verdade, é meu dom.

(Continua...)

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