THE GOOD SOLDIER — THE LETTERS

13:13

Capa por Eloanne Cerqueira

Thomas havia partido há quatro meses. Apesar da forma como ficara sabendo da convocação dele, Joana tentou aproveitar da festa e de sua companhia; Ela mesma o convidara para dançar, o que gerou um sorriso surpreso nos lábios do americano, que sem demora, aceitou o pedido e se uniu a ela nos passos de jazz. Ficaram no salão até a festa chegar ao fim e caminharam pela praia no caminho de volta para a casa da moça que levou um longo sermão por passar do seu horário. Os dias que se seguiram foram dos mais melosos entre os dois, uma vez que cada sorriso, cada carícia, parecia ser a última. Treze dias depois, em 30 de Junho de 1944, Thomas partiu. Joana fez de tudo para se controlar, mas lágrimas, por finas que fossem, deslizaram pelo seu rosto ao vê-lo adentrar o navio rumo ao outro lado do mundo, a Itália. Os degraus eram subidos por ele de maneira demorada, fazendo até outros soldados se irritarem. Ao chegar á porta, parou e se virou. Os olhos claros, opacos, fitaram os belos traços do rosto da brasileira que sorria tristemente em meio ao choro.

- I love you, never forget that. – Silabou ele e mesmo aquela distância, Joana compreendeu.
- I love you too, soldier.

Os soldados brasileiros deixaram sua terra sob o comando do general João Batista Mascarenhas de Morais,  rumando à província de Nápoles, no sul da Itália. Thomas fazia parte dos soldados americanos responsáveis pelo treinamento dos brasileiros, partindo junto ao 2º pelotão em 1º Escalão da Força Expedicionária Brasileira. Era 16 de Julho quando a tropa chegara em seu destino e, mesmo que ansiasse escrever para Joana de imediato, decidiu aguardar mais alguns dias e ter algo de interessante para lhes contar. Sabia que sua namorada era curiosa sobre o mundo lá fora, então não perderia tempo em descobrir cada canto ainda de pé no país da pizza, para contar a sua amada.
Por conta do namoro, Joana se tornou conhecida dentre os generais e comandantes que ainda estavam no Brasil. Sendo assim, apressou em saber de Thomas, por mínimas informações que fossem. Uma vez por mês, cartas eram recebidas dos soldados em batalha e a garota nem mesmo esperava que chegassem em sua casa, pegando-as diretamente do Exército Brasileiro.

Dear Joana,

Eu estou esforçando-me ao máximo para não esquecer do brasileiro. Todos os dias, um soldado do Brasil, chamado Glauco, ensina-me algumas palavras e hoje ele está me ajudando a não cometer erros. Estou sentindo sua falta. Aqui na Itália ainda não há tantas batalhas, estamos treinando os soldados brasileiros e eu acredito que logo eu estarei com você novamente. Como você tem passado? Está frio no Brasil? Diga a Maria que sinto falta dos doces redondos… Ah, Glauco disse que se chamam cocadas!

I miss you already, my Joana.
Now, I love you more.
Thomas.

Não pôde deixar de sorrir ao perceber que ele se esforçava ao máximo para manter o “brasileiro”, como o próprio dizia. Enquanto os olhos corriam pelo papel levemente gasto pela viagem, Joana fazia leves correções e ria baixo, negando com a cabeça e sorrindo largo. Contou à Maria que Thomas sentia saudades dos “doces redondos” e ela riu, perguntando o porquê de estrangeiros nunca acertarem pronunciar coisas tão fáceis. A empregada estava com a família desde que a garota era só um bebê e Joana era muito apegada à ela. Fora a moça quem ensinara Maria a ler e a entender o que se passava no mundo desde 1939 e que, aparentemente, não tinha data marcada para chegar ao fim.

- Eu sabia que devia ter feito mais do que duas dúzias pra ele levar. – Maria se lamentava, colocando a mão direita no rosto, negando com a cabeça. Joana riu.
- De qualquer forma, não teria como aguentar até agora, não é? Cocadas também possuem validade. – Deu de ombros e encarou o papel em suas mãos, voltando a olhar para a mais velha com uma expressão animada.
-  Anda, menina! Responda essa carta logo. – O pano de pratos que carregava na mão esquerda fora contra o braço de Joana, mas sem força nenhuma, fazendo-a rir novamente e correr até sua penteadeira, afastando perfumes e escovas, procurando nas gavetas pelo papel carta que ela guardava há tempo demais.

Hello, soldier!

Você deve dizer “português” e não “brasileiro”! Perdoarei seus erros pois não estou aí para corrigi-los, mas apenas por isso! Estou sentindo a sua falta também! Como é estar na Itália? Sei que deve estar um caos por conta da guerra, mas ainda assim é a Itália, não? Deve haver algum lugar bonito de pé ainda. Eu tenho passado bem, apesar da sua falta aqui!  Disseram que eu não poderia enviar cartas para você, mas conversei com um dos comandantes e ele fará um favor para mim, quer dizer, para nós! Aqui está um clima fresco, bastante agradável. Maria se lamentou por não ter lhes dado mais cocadas quando você partiu! Também está dizendo para você se cuidar e voltar logo, digo o mesmo. Volte logo, Thomas.

I miss you everyday, soldier.
Never forget that I really love you.
Joana.

O humor da moça parecia mais leve após receber a primeira carta do americano. Parecia sempre tensa, preocupada, temerosa de a guerra tirá-lo dela para sempre. Mas, o simples pedaço de papel, trazido por um dos comandantes que ali ficaram, fora o suficiente para fazê-la tranquila em relação ao namorado. Sabia que aquela era a primeira de muitas e, sendo ele apenas um dos treinadores dos soldados brasileiros, não demoraria até que finalmente estivesse com ela mais uma vez.
O ano de 1944 chegou ao fim e a esperança de que a Guerra beirava seus finais fora junto com ele. Thomas ainda não voltara e sequer tinha previsão para estar nas terras brasileiras novamente. Os dois continuavam a trocar cartas e Joana se via aliviada com o fato de que, mesmo após sete meses longe dela, seu soldado não fora enviado para nenhuma batalha e mantinha-se a treinar os brasileiros enviados, deixando o coração de sua amada mais tranquilo sobre a sua volta.

Good morning, my love!

São seis horas da manhã e eu já estou acordado. Na verdade, estou muito cansado, mas não há nada que eu possa fazer senão obedecer as ordens. Percebe como o português melhorou? Glauco continua a me ajudar com isso e já não erro tanto. Espero não ficar desapontada com isso quando eu voltar. Bom, até o fim deste mês seremos enviados para Montese, um município perto das Colinas. Receio que precisarei lutar ao lado do brasileiros e de alguns americanos, mas não se preocupe, eu já estive em batalha antes. Ficarei bem. Dizem que estamos ganhando e não demorará muito para este caos chegar ao fim e finalmente estarei ao seu lado de novo. A propósito, há algo que preciso perguntar-te... mas o farei na minha próxima carta, pois uma vez você me disse que gostava de surpresas. Garanto-lhe ser uma coisa boa! Preciso ir agora, como tem passado? Sinto sua falta cada dia mais. Segundo Glauco, há uma palavra em português exatamente pra isso, “saudades”. Não encontrei uma versão inglês para ela, o que é estranho.

I think about you everyday.
I hope you are still loving me as much as I love you now.
I really miss you, dear.
Thomas.
(Continua…)


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2 comentários

  1. Ai como eu sentia falta de poder surtar por esse moço do meu coração! Aplausos e coro de aleluia são ouvidos enquanto eu surto. Agora, na real, sabe que tenho amado esse seu jeito de incluir datas bem displicentemente? Torna tudo tão fidedigno e cria essa atmosfera de estar ouvindo a história de alguém, como se fosse um conto sobre a vida de alguém mesmo.

    Tá, agora vamos ao surto. Thomas why tão fofo? E como é possível ficar achando erros bonitinhos quando se é uma mala corretora-ortografica? Eu ri alto dos “doces redondos” e fiquei O.O com as duas dúzias, senhor , vai gostar de doce lá longe.
    “Como é estar na Itália? Sei que deve estar um caos por conta da guerra, mas ainda assim é a Itália, não?” ♥ Apenas verdades.

    Esse ultimo paragrafo narrado me deixou com vontade de chorar por motivos de, não consigo lidar com o que eu imagino que você vai fazer, e não sei qual eu quero, e... T_T
    “A propósito, há algo que preciso perguntar-te... mas o farei na minha próxima carta,”
    POR FAVOR, NÃO SEJA MAIS UM “THE LAST CALL”/Epi de The Good Wife, da vida. Se matar ele sem ele fazer a pergunta eu te mato. Eu sei seu endereço, lembra? P.S. I love you, but if you do that I will hate you, but I will love you too. But hate.

    “I hope you are still loving me as much as I love you now.” Joana e todas as leitoras estão te amando soldier.
    Eu li na velocidade da luz ou simplesmente foi menor? Thomas tá me deixando com complexo de Will Herondale, eu fiquei sem chão quando o livro acabou, não pelo fim, mas por acabar.

    Thi, sinceramente, acho que você achou um nicho literário no qual deva investir. Essa história é outro nível em relação às outras que já escreveu. Não fique apreensiva, você à está narrando e conduzindo com maestria.

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    1. Ai como eu sentia falta dos seus surtos por esse moço! ♥ E olha, de início eu fiquei meio sem entender porque "displicentemente", mas depois saquei qual o contexto aqui e tô de boa HAUAHUAH mas sim, a intenção é bem essa mesmo! Fazer o leitor se identificar e encontrar mais realismo na história, ai que coisa linda quando a gente consegue fazer isso!

      Thomas nasceu pra ser fofo, filha, aceita que dói menos! AHUAHUAH É porque a gente só é mala com quem é brasileiro mesmo e fala errado por opção ou desleixo, quando se tem um americano lutando pra falar português e se enrolando todo, (ainda mais sendo o Thomas) fica um amor, né, eu sei, :P

      APENAS PEÇO CALMA! E digo que você irá saber o que ele vai perguntar, relaxe. Guarde suas ameças para outras situações ou para outra coisa que ainda vai rolar /corre

      Na verdade, esse é praticamente do tamanho de The War, mas acho que as pausas das cartas e parágrafos afastados dá a impressão de menor. Esse veio na intenção de 'conto de ligação', sabe? Aquela pausa pra relaxar e curtir os acontecimentos leves, acalmando o coração de vocês com o que já rolou e ainda vai rolar, oê.

      Ai, obrigada! ♥_♥ coisa mais linda ler isso uma hora dessas, sério! Depois de todo o meu surto de achar que estava fazendo besteira ou que estava ficando péssimo, ler isso é uma dádiva. ♥

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