THE GOOD SOLDIER — THE WAR

20:10

Capa por Eloanne Cerqueira
As visitas à casa de Joana tornaram-se contínuas. Enquanto os demais soldados exploravam os prazeres que o país tropical oferecia, Thomas preferia explorar Joana. Conhecer mais da garota que o encantou desde o primeiro momento ao defender seu país da invasão americana. Gostava da sua presença e queria estar com ela bem mais do que lhe era permitido, queria ouvir sua voz mesmo que fosse para corrigi-lo. Joana tinha sido uma das melhores coisas na sua vida desde que fora obrigado a se alistar.   
Já a moça, vivia um conflito interno. As atitudes do soldado eram sempre tão adoráveis, o tempo ao lado dele era tão agradável, mas ainda era um estrangeiro que poderia ser convocado para a guerra uma hora ou outra. Não poderia se deixar levar pelo sentimento visível do americano e não era necessário que suas amigas comentassem sobre isso, ela sabia e tinha receio de sentir o mesmo. Era sempre a cabeça do grupo, conhecida por pensar, até demais, antes de qualquer decisão. Mas se tornava cada vez mais difícil já que Thomas estava sempre ao seu lado, com seus belos olhos claros e erros de português muito divertidos.
No dia em questão, Thomas parecia distante, nervoso. Recusou-se a iniciar qualquer diálogo em português, o que era totalmente estranho, já que ele sempre perguntava uma ou outra palavra. As cocadas de Maria foram pouco consumidas e muitas vezes, um silêncio constrangedor tomava conta da sala. Joana estava confusa e preocupada, o normal dele não era assim. O que havia feito de errado? Suas amigas teriam deixado escapar que ela estava incerta dos próprios sentimentos ou alguma atitude sua deixara transparecer isso?
- Thomas, what’s wrong with you? – Perguntou após um longo silêncio e o soldado virou o rosto para o lado oposto à ela, engolindo em seco.
- Nothing. – Brincava com o chapéu nas mãos e acabou derrubando-o. Antes que pudesse pegá-lo, Joana foi mais rápida. Foi obrigado a se virar para ela e suspirou pesado, erguendo a mão na direção dela. – Give it back.  
- What’s wrong with you? – Repetiu pausadamente, afastando o chapéu dele e encarando-o muito séria, ele fechou os olhos por alguns segundos e desviou o olhar novamente. – Answer me. Did I do something?
- Of course not. – Foi rápido em responder, mas calou-se em seguida. Ajeitou-se no sofá e inclinou o tronco para frente, abaixando a cabeça e apoiando os braços nas próprias pernas, as mãos se uniram em nervosismo. – I just... I’m afraid. – Suspirou pesado. – I’m afraid ‘cause I’m love with you. – O rosto se virou para ela que tinha os olhos arregalados. – And I don’t know if...
- ... I’m love with you too. – Completou a frase dita com um sussurro demonstrando preocupação em sua voz, enquanto os olhos, arregalados e incrédulos, encaravam o chão. O coração da moça falhou uma batida ao ouvir aquilo. Por mais que já imaginasse, ouvir dos lábios do soldado era uma outra história. Os lábios se abriram e fecharam diversas vezes até que finalmente pudessem dizer algo. – Thomas, I...
- Olha... – Disse ele numa naturalidade que impressionou a moça. Thomas se ergueu do sofá e se pôs de pé, ao lado dela. Ajeitou a roupa e encarou o chão, como se repassasse alguma coisa mentalmente. – Eu sei que você não gosta de americanos e que nossa presença aqui incomoda você. – A fala era pausada, demonstrando que havia sido ensaiada. “Sua presença não me incomoda” pensou ela, mas não atrapalhou. – Mas eu gosto de você. E eu não sei quando a guerra vai chamar-me. Não quero perder a única coisa boa que me aconteceu desde a minha convocação.
Joana parou. Os olhos estavam arregalados e a mente totalmente bagunçada. A fala havia sido tão perfeita, com certeza havia procurado algum soldado “veterano” no país para ajuda-lo e isso só tornava tudo ainda mais complicado para a moça. Ele se esforçava ao máximo por ela, ficava difícil analisar a situação com a razão ao invés da emoção.  Aquela invasão era realmente desnecessária aos seus olhos, os soldados queriam uma réplica dos Estados Unidos no Brasil e deixaram a cidade de cabeça para baixo desde a sua chegada. Mas Thomas era diferente, ele não quis transformá-la em americana assim que a conheceu. Ele apreciava a Joana brasileira e não uma Joana que poderia se assemelhar a uma atriz de Hollywood. Os olhos confusos encaravam o chão e a boca se abriu inúmeras vezes, mas nenhum som saiu dali.
Thomas se sentia realizado por ter conseguido colocar seu plano em prática sem escorregar e cometer algum erro estúpido, deixando tudo ir por água a baixo. Mas ao mesmo tempo temia a resposta da moça, já que ela parecia um pouco atordoada com as palavras que ele dissera. Aproximou-se dela e ajoelhou-se a sua frente, guiando uma mão até o rosto dela, fazendo-a sustentar o olhar, enquanto a outra segurava-lhe a mão.
- Give me a chance. – Pediu em um sussurro, encarando os belos olhos escuros, deslizando o polegar levemente pela delicada pele dela.
- A chance to what? – Àquela altura não tinha mais certeza de nada, principalmente diante da proximidade em que se encontravam. Com o carinho, os olhos se fecharam e as mãos que estavam no colo apertaram o tecido do vestido.
- To be happy, - Os olhos do americano se perderam ao encararem os lábios de Joana e o rosto se aproximou um pouco mais, deixando que os narizes se tocassem, ele sorriu pequeno. – with you. – O sussurro fora quase inaudível e se a moça não estivesse tão perto, não teria ouvido.
Diante do silêncio da parte dela, Thomas não sabia se deveria continuar ou desistir. Mas estava tão perto e mesmo que depois fosse expulso dali por atrevimento, não poderia se culpar por tentar. Timidamente, passou a diminuir a distância que já era praticamente inexistente entre eles e os lábios tocaram os dela de forma hesitante. Se Joana ainda tivesse alguma dúvida do que queria, poderia dizer que tivera a certeza naquele momento, ela queria aqueles lábios macios sobre os seus sempre que tivesse oportunidade. As mãos hesitaram um pouco antes de tocar o rosto do soldado que sorriu em meio ao contato assim que sentiu os toques da moça.
O beijo chegou ao fim, mas não se afastaram e nem queriam. As respirações descompassadas se misturavam por conta da proximidade. Joana abriu os olhos e ao encarar o brilho presente nos claros de Thomas, um sorriso involuntário se abriu em seu rosto.
-  Is this a “yes”? – Perguntou em um tom hesitante, ela riu.
- Yes.

*****************

         Um ano havia se passado.
         Apesar de países do mundo inteiro, literalmente, se atacassem entre si com bombas e mísseis, o país tropical ainda vivia os seus dias de glória com americanos indo e vindo para Miami Beach, praia norte-rio-grandense batizada por eles dessa maneira. As festas continuavam tão frequentadas como antes, as garotas cortavam seus longos cabelos e usavam penteados idênticos aos comuns em filmes de Hollywood. Parnamirim continuava a ser a cidade americana no sertão brasileiro.
         E em meio a isso tudo, um curioso casal não poderia estar mais feliz. Thomas levara certo tempo para aprender todo o discurso que faria aos pais da garota e até se saiu bem, apesar de trocar as palavras uma ou duas vezes, deixando dona Cecília, mãe de Joana, completamente encantada. Mesmo um pouco contra sua vontade, seu Antônio aprovou o namoro, com a condição de que o rapaz de olhos claros não se atrevesse a obrigar a garota a cortar os cabelos ou usar calças compridas, Thomas não escondeu o sorriso ao dizer que isso não aconteceria nunca.
         Era sábado, dezessete de Junho de 1944 e havia uma festa. Os veteranos que ainda restavam no país se organizavam todo fim de semana para celebrar sua estadia, afinal, nunca se sabe quando a guerra irá chama-los.  Thomas nunca se mostrava interessado nessas celebrações, preferia ficar ao lado de Joana e aproveitar de suas histórias, de seu sotaque brasileiro em determinadas palavras em inglês ou da forma em que o corrigia.
         Mas aquela festa em questão, ele optou ir.
         A moça não teve resposta ao perguntar qual motivo o levou para aquela decisão, mas se conformou em acompanha-lo. Não seria uma festa tão ruim, já que agora tinha uma companhia e tanto para fazer da comemoração um pouco mais atrativa. O soldado a buscou em casa, mas estava quieto. Tão quieto que fazia o “Thomas nervoso” do dia que se declarou para ela, torna-se um dos mais faladores da cidade. Joana estranhou, mas manteve-se tão calada quanto. Ao chegarem ao local, já era possível notar os outros rindo e bebendo, enquanto casais dançavam animadamente ao som de jazz. O rapaz parou e hesitou entrar assim que viu os colegas, apertou a mão da garota que adotou uma expressão confusa.
         - Antes de nós entramos aqui, eu preciso dizer uma coisa. – Em outras circunstâncias, o erro seria notado e debochado por ela. Mas diante da seriedade no tom de voz dele, Joana esfriou, apesar do clima estar completamente agradável naquela época do ano.
         Thomas tinha um nó na garganta e há dias tentava achar uma maneira de contar aquilo para ela. Nem mesmo sabia o porquê de esperar tanto tempo para informa-la, talvez estivesse esperando que algo mudasse, por mais que soubesse que isso não iria acontecer. Estar com ela durante todo aquele tempo o fez esquecer o real motivo de estar em um país tão distante e tão quente.
         A guerra.
         - O que está acontecendo? – Ela engoliu em seco, por mais que já imaginasse do que se tratava, na verdade tudo se explicou ao fim da fala de Thomas. O silêncio, o nervoso, a festa... só havia uma razão para ele estar daquele jeito e ela esperava de todo o seu coração que a única razão que fazia sentido não fosse a resposta dele.
         - Essa festa foi feita para vinte e cinco soldados americanos em especial. – Ele encarou a algazarra no interior do local e suspirou pesado, apertando a mão da garota novamente e baixando o rosto.
         - E por que eu estou sabendo disso aqui fora e não lá dentro, junto com eles? – Seus olhos estavam confusos e procuravam respostas no dele, mesmo que o contato visual não existisse no momento.
         - Porque eu sou um deles. – Os olhos se fecharam e após um longo silêncio entre ambos, o rosto se ergueu e os olhos claros de Thomas estavam opacos, procurando pelos orbes confusos de Joana. – Eu fui convocado.

(Continua...)


Confira os demais capítulos nos links abaixo:
The meeting; The reunion; The War; The Letters; The end;

 

Leia Também:

4 comentários

  1. Pois bem, venho cá trazer amor pra esse soldado apertável e guardável num potinho.
    Continuo achando que a terceira frase desse capítulo/parte é altamente ambígua na interpretação, e sei que vai me xingar por isso mas é sim, Thomas continue explorando joana meu querido, vai fundo. /corre.
    Posso falar uma coisa? Essas cocadas me dão fome. Pois é.
    Just for the records: O chapéu ali era o do uniforme? Se sim o nome é quepe/quépi.
    “– I just... I’m afraid. – Suspirou pesado. – I’m afraid ‘cause I’m love with you.” Olha, já aviso se Joana não quiser eu quero ele pra mim. /fangirl
    Eu não posso com seu personagem, é serio, meus surtos tão muito altos e eu já tinha lido isso, comolidar?!
    Ta analisando ~pseudo~ criticamente essa parte eu amei, serio foi objetivo, com um expectativa pra resposta e tal mas sem muito mimimi, e nem por isso menos amor ~ vide minha pessoa vomitando arco íris aqui ~
    Enfim continuando, você escolheu a data por algum motivo especial?
    Existem coisas nesse ultimo paragrafo que arrancam duas reações distintas de minha pessoa: Meu lado leitora quer te ‘bater” porque no começo dessa história eu tava toda “eu quero que o soldado morra” mas ai dona Bolinho vai lá e faz o que? Escreve o personagem mais doce feito de açúcar de fadas e leite de unicórnios, ou seja, torna impossível não se apaixonar pela criatura que dá vontade de guardar num potinho, logo não quero mais que ele morra, e quando chego a tal conclusão é justamente com as três ultimas palavras. Agora, eu vou ali chorar no cantinho porque sim. Bem a outra reação é meu lado escritora que amordaçou a leitora surtada e tá te dando os parabéns por conseguir arrancar essa reação, pois se fez isso é porque a escrita tá de parabéns.
    Enfim, espero com MUITA, M.U.I.T.A ansiedade pela próxima parte.
    P.S. Oficialmente minha playlist da Norah Jones é minha OST favorita pra essa fic.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Seu comentário quase um livro que me mata de amores!
      Ignorando seu lado pervertido sobre a frase do início, o chapéu é apenas um chapéu. Que era comum nas vestes da época, ele não estava vestido como soldado nesse momento na casa dela. E SIM, as cocadas dão maior fome. ALSDJLKSJ

      Bom, as datas estão relacionadas aos textos que ainda serão postados, então não é bem por algum motivo especial meu, mas tem a ver com a Guerra de fato, pra dar um pouco mais de realidade ao texto, sabe?

      E, eu só acho tudo bem feito pra você! ÇLSKDAÇLSK Quando eu falei sobre a série, você jogou logo um "quero que ele morra" e agora 'tá aí, sofrida porque não sabe o que irá acontecer com o pobre Thomas. Só digo uma coisa: Me aguarde. :P HAHAHAHAH
      E eu não conheço Norah Jones, então pode me mandar!

      Excluir
  2. Thomas é um lindo, apenas reiterando (e acho que ele se daria super bem com o pai da Hyerin, mas isso não vem ao caso..rs). Uma das coisas que mais gosto acerca do rapaz é a forma como ele se condensa com Joana, porque ela é igualmente uma linda, equilibrando o ser direta/racional com o doce/sensível-sem-mimimi, então fica uma combinação muito gostosa de se ler ^^
    Aí vem toda a cena que termina com a certeza do sentimento recíproco. Cara, vc conseguiu mergulhar-nos na tensão deles, toda aquela apreensão, ela completando com um sussurro a incerteza do moço.. sabe aquela sensação de o momento estar suspenço no ar? Pois então, e ainda nos leva a descompassar a própria respiração junto com a deles.. just awesome, for real, just awesome.. e não pense q eh exagero meu, apenas vou na vibe mesmo quando gosto da história x] ..Enfim, sei que aprecio aquele "Um ano havia se passado", pois também pode ser lido como "pronto, controla os feelings, respira fundo e segue na fé".
    Dona Cecília já pode sentar aqui no lado que se encantou com Thomas, e suspeito que seu Antônio só aprovou "um pouco" contra sua vontade pra manter a boa imagem de pai cuidadoso e protetor, porque eu sei q no fundo ele simpatizou com o soldado formoso.
    The Waaaar is Coming *----*
    Por mais legal que seja uma boa história se desenrolando nessa época de conflitos globais, sempre fica ainda mais legal quando a guerra mesmo se mete no meio! Já imaginei versões e desfechos diferentes, mas tô cheia daquelas ansiedades-curiosas para ver como que você vai brincar com os feelings (deles e nosso kkk).

    Só mais algumas considerações finais: Tom, de "Tom e Jerry", foi o primeiro Tomas que conheci, então não posso evitar imaginar Thomas com jeitos e trejeitos de gato kkk ainda hei de desenhar-lo "gato nervoso"; falando sobre, só agora percebi que podia tê-los desenhado com os olhos abertos, talvez fosse ficar mais legal :/

    "Faça cocadas, não faça guerra." - Maria, the cocadas boss

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Mulher, olha o tempo que eu demorei pra te responder! A senhora, por favor, não queira me bater! HSUDAHSAUH
      Então, eu estava um pouco preocupado com isso. De Thomas acabar sendo meloso demais, só que vamos dar um desconto ao rapaz. É guerra, ele está em terras brasileiras, e nós somos um povo muito lindo! :B HAUAHAUH
      A intenção era essa mesmo, sabe. Jogar a tensão em vocês e quando acabasse, dar aquele time. Tanto que, o conto seguinte (que a essa altura você já leu xD) é bem clean e tal que é pra dar aquela aliviada nas pessoas porque senão morre todo mundo do coração (até eu HAUAHUH)
      Ah, mas é claro! Se hoje já se tem todo um amor por moços de fora e enfardados, imagina naquela época! Seu Antônio só fez esse charminho pra manter a pose de pai chato. :P
      É essa expectativa toda de vocês que me deixa um pouco (muito) receosa de continuar a história. Tenho medo de decepcionar as senhoritas :~ mas eu juro JURO que está tudo meio caminho andado, é sério SADLDKAJDKSJAK

      MORTA, PIOR QUE É! Mas ele não é tão gato a esse ponto, ele é mais dele. É quietinho :P

      Só queria expressar que agora me deu vontade de comer cocadas :~

      Excluir

ATENÇÃO:

O conteúdo aqui postado é de responsabilidade de seus respectivos autores e fica proibida a reprodução de qualquer publicação sem o consentimento dos mesmos e/ou sem os devidos créditos, sendo considerado PLÁGIO.

ARQUIVO