THE GOOD SOLDIER — THE MEETING

09:26

Capa por Eloanne Cerqueira

Era verão de 1943.
Parnamirim, no Rio Grande do Norte vivia seus momentos de glória. Nunca seus aeroportos estiveram tão cheios, a cidade estava cheia de homens brancos que logo aderiam ao tom alaranjado por conta do sol forte no nordeste brasileiro. A vida noturna na cidade ganhava agitação e euforia, com discotecas ao estilo americano e bebidas internacionais fortes o suficiente para deixar uma brasileirinha tonta logo no primeiro gole.  As amigas de Joana deixaram as saias rodadas de lado há tempos e aderiram as calças compridas e ao chiclete que as artistas de Hollywood, segundo os turistas, usavam. "Você está muito démodé, deveria mudar assim como nós fizemos" repetiam aos montes, mas a moça apenas dava de ombros. Não gostava de toda aquela agitação, sentia falta do quão pacata sua cidade natal costumava ser. Apesar de ser uma das melhores na turma de inglês, aquela invasão americana não lhe agradava pelo simples fato de estar afastando as tradições e cultura tão ricas de seu país. "Nem estamos na guerra e já somos obrigados a conviver com soldados nas ruas" era um dos pensamentos mais constantes em Joana.
Mas naquela noite fora vencida pelo cansaço e decidiu ir até uma das tais festas com as amigas. "Não irás se arrepender disto, eu garanto" dizia Helena, sua prima, enquanto arrumava os curtos cabelos falsamente cacheados para se parecer com uma mulher qualquer que um soldado lhe mostrara. Joana usava suas roupas de sempre, mesmo que as companheiras fossem contra, dissera que só iria se pudesse usar o que quiser. As moças aceitaram e agora estavam todas as cinco em frente a um grande salão de festas. Um soldado de olhos verdes, amigo de Ana, as acompanhava, ele era quem as tinha convidado. Por mais que todas ali soubessem que seu interesse era único e exclusivamente nos fartos seios que Ana possuía e fazia questão de deixar em evidência.
Adentraram então o lugar e Joana já sentia vontade de voltar para casa. Era barulho em demasia, pessoas desconhecidas e olhares de desdém em sua direção. Procurou por Helena, mas esta já dançava ao lado de um jovem de cabelos loiros e pele clara demais, provavelmente tinha chegado ao país há pouco tempo. Joana então suspirou e decidiu procurar uma cadeira para se sentar e esperar até que as outras se cansassem e pudessem ir embora.
- Olá! – Uma voz masculina e totalmente carregada de sotaque estrangeiro disse próximo à ela. Joana se virou e pode encontrar um rapaz com os olhos azuis e tão entediados quanto os dela. A pele estava levemente avermelhada, marcas da adaptação ao sol. Os cabelos eram castanhos e usava roupa em tom cáqui. Marcas dos militares, mas se bem que com a chegada destes, a cidade inteira adotou a cor.
- Oi. - Disse ela com o seu melhor tom de falsa simpatia, afinal, não queria ser cortejada por nenhum americano. Já sabia da má fama de todos eles. O rapaz notou o descontentamento alheio, mas continuou.
- Eu poderia me sentar-me com você? - A fala ainda era carregada pelo sotaque e Joana precisou rir, deixando o rapaz levemente confuso. 
- You should just say "Eu poderia sentar-me", it doesn't need to be repeated. –Respondeu um pouco mais amigável e o americano se viu surpreso com a pronúncia tão bem feita.
- I'm sorry! Portuguese is too hard for me. - Ele riu e coçou a nuca, sentando-se ao lado dela, mesmo que sua pergunta não tivesse sido respondida. -  I arrived here just a few weeks ago. I only learnt how to say things like "bom dia". - Deu de ombros e Joana riu, fazendo-o relaxar. A postura dela havia melhorado, poderia então sair do tédio que estava desde que chegara ali. Na verdade, sua vida era tédio desde que chegara ao país. Ou melhor, desde que seu pai o obrigara a se alistar.
- Well, feel free to talk to me in English. – Ela sorriu, mas não sabia exatamente o porquê. Na verdade, a confusão dele com o português havia sido bastante agradável aos olhos dela. - I can help you with the "portuguese stuff", if you want.
- Oh, sure. - Concordou com um sorriso e limpou a mão na calça, podendo assim estendê-la na direção dela. - I'm Thomas. 
- Joana. - a mão fora de encontro a dele que puxou-a para próximo dos lábios e a beijou, deixando a garota levemente desconcertada. Nunca sabia como agir em meio a um cortejo. Na verdade, era a primeira vez que algo do gênero acontecia com ela.
Thomas perguntou o que ela achava da guerra e de todo o caos que o mundo se encontrava e se sentiu muito estúpido ao ouvir sua resposta. Ela era conhecedora da atualidade e tinha uma postura parecida com a sua. Ambos achavam a guerra inútil e desnecessária.  Ambos pensavam em quantos homens precisavam morrer para que percebessem o quão estúpida era aquela batalha mundial. Joana lhes perguntou a razão para que tivesse se alistado e, após um suspiro de Thomas, ouviu que o rapaz havia sido praticamente obrigado pelo pai. Sua carta não tinha sido enviada, mas fora "voluntariamente" oferecer-se para defender o país. Tivera sorte em acabar no Brasil ao invés de campos de batalha. Joana concordou. Mesmo que pelo seu ponto de vista, todo aquele desfile americano fosse uma algazarra sem fundamentos, não diria à ele logo de cara. Seria deselegante e ele havia sido gentil com ela. As horas passaram despercebidas e faltavam cerca de trinta minutos para que as moças fossem embora.
- Can I have this dance, lady? - Ele propôs aleatoriamente com um sorriso no rosto e Joana arregalou os olhos, surpresa e assustada. Não sabia dançar. 
- I'm sorry, mister, but I can't dance. - dissera desconcertada e ele riu, puxando-a pela mão. 
- Only one, please. - Sua expressão era apelativa e Joana rolou os olhos e deu de ombros, seguindo-o com um sorriso discreto no rosto.
Os primeiros passos foram desastrosos. Joana pensou seriamente em desistir, inclusive soltou as mãos do soldado algumas vezes, mas Thomas fora mais rápido, puxando-a mais uma vez para perto de si, soltando algumas risadas e sussurrando palavras de incentivo para ela. As amigas da garota observavam aquela cena com sorrisos nos lábios e algumas delas até se entreolharam rindo, como se dissessem “olha só, e ela nem queria vir” e coisas do gênero. Algumas muitas tentativas depois, Joana havia conseguido pegar o ritmo e agora dançava maravilhosamente ao lado dele. Thomas não podia conter o sorriso largo. A garota tinha a pele levemente morena que combinava perfeitamente com os cabelos negros longos e cacheados nas pontas. Os olhos escuros, em contraste com os tão azuis do americano... Era realmente uma garota maravilhosa.
         - Joana, meu amor. Sinto muito interromper a sua dança, mas nós precisamos ir. – Helena surgiu entre eles, assustando a amiga e deixando o soldado com uma expressão confusa, a garota de cabelos curtos riu. – Avisa pro seu soldado que ele tem cinco minutos pra se despedir de você. – Enviou uma piscadela para Thomas que continuou confuso e saiu, deixando Joana desconcertada pela frase dita. “Seu soldado” que coisa mais boba. Era sorte ele não entender praticamente nada do idioma.
- Look, I have to go now. Thank you for this dance. – Ela deu de ombros e já se preparava para ir embora sem nem mesmo olhá-lo nos olhos, quando tivera o braço segurado por ele.
- We will meet again, won't we? – Os olhos claros imploravam por uma resposta positiva. Joana evitava encará-los, mas era quase impossível. Eram belos demais para serem ignorados. Ela suspirou.
- Talk to him, - Apontou para o soldado de olhos verdes que ainda se engraçava para Ana. – That soldier knows where I'm. – Thomas olhou na direção indicada e sorriu com o canto dos lábios. O soldado em questão era Harry, bem conhecido do rapaz. Ele então soltou o braço dela, segurando-lhe agora a mão, que puxou para rente aos lábios pela segunda vez naquela noite e beijou o dorso, olhando nos olhos da garota.
- It was a pleasure. – O rosto se ergueu e Thomas manteve os olhos fixos no rosto da brasileira, atento para não esquecer nenhum detalhe. Foi com pesar que soltou a pequena mão de Joana e a assistiu ir na direção das amigas.
A garota de cabelos curtos que falara algo anteriormente piscou para ele mais uma vez e o soldado não fez nada mais que rir e vê-las irem embora. Joana não olhou pra trás em nenhum momento até chegar a porta. As amigas se despediam dos seus respectivos parceiros e, com as mãos unidas uma na outra, Joana se virou e os olhos procuraram por Thomas. Ele sorriu e lhes enviou uma piscadela, assim como a amiga dela fizera. Ela apenas riu e acenou discretamente. No momento seguinte, ela deixara o salão.
O coração do rapaz batia forte com aquele curto encontro. Desde que chegara no Brasil, via seus amigos com garotas bonitas que tentavam ser garotas americanas. Garotas que, aos olhos dele, pareciam fúteis e enjoativas. Joana não lhes parecia assim e não pensava dessa maneira apenas pela roupa. Ela era encantadora e não se contentaria com apenas uma dança com ela. E foi por isso que poucos minutos depois ele já estava ao lado de Harry, procurando informações da moça.

Sua viagem ao país tropical finalmente teria algum sentido, afinal.

(Continua...)

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6 comentários

  1. ~ Yoo trainee o/

    Vc sabe que adorei a época, e que achei bem interessante por ser no Brasil. Porque no geral, estamos habituadas àqueles dramas EUA/Europa da Guerra (q são lindos sim), e por no Brasil não ter as batalhas épicas de mesmo nível, meio q cria esse preconceito com histórias da II Guerra por aqui. Parece até q não pode render um bom enredo por ser no Brasil, o bichinho. Mas tá aí "Olga", por exemplo, pra provar o contrário.
    O good soldier [Thomas-gatinho (aliás, no meu cast, o vejo como Tommy Merlin ~ aquele lindo ~ de Arrow)] e a Joanina, estão inseridos nesse contexto massa de transição histórica, dos costumes sendo americanizados, todo aquele furor de hollywood wannabes, temperado com o choque de ideais e moralismos sobre o teor certo/errado da guerra, vale ou não a pena e tals. O que achei legal também é o lugar q vc escolheu, pq fugiu dos badalados SP/Rio/Brasília e catou um lugar na ponta do nordeste. Isso acaba despertando certa curiosidade (bom, comigo foi assim x]), e aquela vontade de perguntar à titia Wikipédia a respeito. E ela disse que até o brother Roosevelt esteve nas redondezas dando um rolê de carro com Gegê. Cara, História <3
    Ah sim, mas uma história tão rica em contexto ia acabar ficando meio vazia se também não tivesse personagens à altura.
    Gostei de Joanina, moça direita e decidida, manja do inglês e não parece ser daquelas q vai sucumbir aos encantos dos costumes da terra do Tio Sam. Ela daria uma boa tenente.. hm.. e sim, ela tem cara de que gosta da folia (folia da época, claro).
    Tommy, o rapaz que foi para os braços da guerra por livre e espontânea pressão. Sempre que tem dessas coisas imagino o que passava na cabeça desse povo. Porque cara, não é um simples "forçar alguém a ir contra os próprios princípios, pq vai ser melhor pra todos", tá mais pra um "tomar o controle da vida de alguém, ser arbitrário e lançar à sorte". Patriotismo, amor à bandeira e "Ouviram do Ipiranga..", tá certo. Mas claro, eram outros tempos, tempos bem incertos.. imagina ir à escola com medo de um bombardeio súbito?, sem saber se vai viver até a hora do recreio, ou se volta pra casa.. difícil cara.
    Ow sim, Tommy. Gostei dele, rapaz sutil, cavalheiro, com bons ideais (q ornam com os de Joanina, e isso é importante), além de ser uma fofura ele patinando no português x]
    Outra coisa, o cavalheirismo e a "química" envolvida nesse primeiro encontro ficou legal, nada forçado pra deixar a ideia de "vai ser um romance". Pq tipo, olhando pelo lado dele, o rapaz chega num país diferente, não conhece nada, observa alguém que parece ser legal (acho q todo mundo já teve isso, de observar um estranho e achar q eh legal, ter vontade de ir falar e tals..rs), vai lá trocar uma ideia e descobre q a moça é mesmo um broto legal, boa de conversa, e ainda o ajuda no idioma local.. claro que ele vai querer encontrá-la outra vez, quem não iria?..rs

    As always, waiting the next :D


    p.s.: só a nível de registro, acho uma gracinha a expressão "barulho em demasia" x]

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    1. Eu só queria dizer que amo esses teus comentários grandes, mesmo que eu não tenha pique pra responder tudo! (ainda tô te devendo respostas em First Love, não me mate ♥)
      CARA, nem sei por onde começar, socorro. ÇSLAKÇDLK Mas olha, fico feliz que tenha gostado de Tommy, assim como eu! Uma graça de menino, falaí! ♥ Joana (Para de chamar de Joanina, ok., obg) é uma graça também, porém eu gosto mais de Tommt por motivos óbvios de soldado + americano + atrapalhado no português! ÇSALDKDKSL Só vou comentar isso mesmo, o resto eu já comentei contigo via wpp, então tá sucesso! xD

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  2. Finalmente, criei vergonha na cara e comecei a ler... o/
    (Vamos ao que interessa, antes que eu perca o "fio da meada")

    A estória é bem diferente do que eu costumo ler... (ficção, fantasia, suspense policial... Ok, isso não vem ao caso)

    Conheço/Li apenas dois livros (escritos recentemente) em que os personagens se entrelaçam a fatos históricos e suas épocas, mas aprecio muito esse tipo de estória. E nunca havia encontrado nenhum texto do tipo em que os fatos envolvessem parte da história do Brasil. O que tornou a estória duplamente mais atrativa para mim.

    Já na metade da leitura eu comecei a torcer para que a história de Joana, a garota pé no chão e que presa pela cultura de seu país, e Thomas, o rapaz que se alistou por livre e espontânea pressão, possa ser um pouco longa, pelo simples fato de seus pontos de vista em relação aos acontecimentos parecerem diferentes dos da "maioria".

    Adorei o modo como você escreve, acho que nunca li nenhuma das suas fics, o interesse nos personagens parece aumentar naturalmente (pelo menos, esse foi o meu caso).

    Creio que você tenha feito alguma pesquisa sobre a chegada dos americanos por estas bandas e a receptividade dos potiguares nesse contexto de guerra.
    E fiquei um pouco envergonhada por perceber que não sei nada sobre a cidade onde moro. Sei um pouco sobre Natal, por ter nascido lá e por ter estudado algo no colégio, mas nada muito aprofundado, principalmente quanto a este tópico.

    Já estou falando muito... Besteiras, é bem provável...
    Despeço-me por aqui... E vou ler a próxima parte... xD


    Thaí

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    1. Olha aí, a menina que mora na cidade da fic! xD
      Gente, primeiro deixa eu comentar que: quase morri de tanto sorrir com o seu comentário, sério mesmo! Na verdade, eu estava estudando sobre a Mídia e Modernidade (pasme!) e encontrei em um das edições da Aventuras na História, sobre influência americana na Segunda Guerra e acabei achando Brasil no meio. Guardei a revista e ela ficou me encarando por uns três e pronto, me rendi! Precisei começar! hahahaha
      Eu fico bastante feliz que os personagens tenham despertado tanto interesse assim e espero de coração que não mude de ideia daqui pro fim dos contos, sério! :P
      E que isso, falou besteira nada! Comentário bom é assim! xD
      PS: "Adorei o modo como você escreve" guardando essa frase pro resto da vida, porque ♥♥

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  3. Whoaaaaaaaaa! Eu nunca fui muito fã de histórias em cenários mais antigos, mas sempre tem uma primeira ou segunda vez, certo? Vindo de você, tive que arriscar né, Thi? E pra ser sincera gostei bastante. Que soldado mais assanhado, uh? Chega assim, beijando Joana e deixando a pobre desconcertada. É legal isso de você fazer a história no cenário brasileiro, eu consegui imaginar Joana certinho. Como aquela típica brasileira! Arrasou, girl!
    Indo pra segunda parte bastante satisfeita! Adorei!

    Beijo, sua linda xx
    (Sorry meu comentário não ser um terço do de cima, mas ultimamente até comentários tão sendo difíceis! Sad story, bro)

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    1. Sami deosa! ♥
      Não tem porque se desculpar porque seu comentário tá lindo e eu já estou chorosa com o "Vindo de você, tive que arriscar né, Thi?" af, vocês ficam me emocionando assim :'D
      Fico feliz que tenha gostado e me sinto com um certo peso nas costas pra fazer você continuar gostando no decorrer dos contos, mas espero conseguir! hahaha
      Beijo, sua linda! ♥

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