FIRST LOVE — IV

16:05




Às vezes fico tão curioso sobre você, sobre o que você se tornou.
Às vezes penso em você, sinto tanto a sua falta.
O que estaria fazendo agora?
Primeiro amor, meu amor inesquecível,
Eu sou o único que ainda se lembra? Chamar-te-ei desesperadamente,
Até que eu possa te encontrar e te ter novamente.
Pra sempre.
Baseado em First Love –  After School.

                 
IV.
Era dia de fechamento de edição e Hyerin tinha quatro fotos para o primeiro caderno, duas para o segundo, uma para a coluna social e três para a publicidade. Não gostava de se gabar, mas era bem reconhecida no que fazia e por isso era bastante comum que pessoas de cursos diversos viessem até ela para pedir ajuda em trabalhos e apresentações. Não chegava a cobrar, é claro. Todo o trabalho contava como pontos no seu estágio e talvez fosse essa a razão para ser tão bem procurada: era um trabalho bem feito e nada lhes custavam. Estava na redação desde cedo, mesmo que sua única função fosse fornecer as fotos, ajudava na escolha das de outros fotógrafos e ainda tinha pseudo-aulas de jornalismo e até mesmo publicidade. Conhecia todo o dicionário jornalístico bem mais que qualquer calouro do curso em Crawford.
Deixou o cartão de memória com o diagramador¹ e seguiu até a própria mesa, procurando pelas sugestões de pautas² da edição da semana seguinte, para ter uma ideia do que precisaria fazer e qual jornalista ela seguiria. Nem morta que acompanharia Bessie na viagem para o interior, pelo menos não para cobrir a feira de animais. Recolheu os papéis, arrumando-os por ordem de pautas menos chatas quando ouviu alguém mencionar o seu nome. Ergueu o rosto com os olhos semicerrados em busca da pessoa – provavelmente um rapaz – que procurava por ela e não demorou a encontra-lo, conversando com Alan, estagiário do caderno de esportes. O desconhecido usava roupas agradáveis aos olhos dela e não pôde deixar de pensar bobagens que toda e qualquer garota pensa ao perceber um cara bem vestido procurando por ela. Riu e negou com a cabeça.
- Alguém procurando por mim? – Perguntou e Alan sorriu para ela, deixando-a sozinha com o desconhecido logo em seguida. O rapaz parecia nervoso, manteve-se estático por pelo menos vinte segundos e Hyerin pendeu a cabeça para o lado, confusa. Moço? Eu sou Hyerin Oh, posso te ajudar em alguma coisa? – Resolveu repetir, vai que ele não ouvisse muito bem, nunca se sabe.
Henry continuou parado. As mãos abriram e fecharam diversas vezes e ele engoliu em seco. Respirou fundo e virou-se para a garota quase que no automático, parecendo muito bobo daquela maneira. Se seus olhos já brilharam ao vê-la pela mísera foto 3x4 do sistema da Faculdade, no momento encontravam-se radiantes ao encará-la. Era baixinha como ele havia imaginado, mas também foi a única coisa que acertou sobre ela. Os cabelos eram longos e cacheados nas pontas, usava franjinha de lado o que só a deixava com uma aparência mais jovem. As bochechas eram tão grandes quanto na infância e ele riu com isso, fazendo Hyerin encará-lo ainda mais confusa do que antes. Não se lembrava de tê-lo visto e ele parecia esquisito. Rindo do nada, encarando-a de forma... estranha. Pensou em gritar por Alan, mas a sala estava sempre cheia, se aquele maluco tentasse algo ela teria quem a ajudasse.
- Oi. – Foi tudo o que ele disse e se sentiu muito patético no momento. E não era pra menos, havia ensaiado tudo diversas vezes para ela chegar assim, do nada, e acabar com seus planos. – Eu estudo Engenharia Aeronáutica e preciso de umas fotos pra um projeto! Me disseram pra procurar por você. – Olha só se não era Henry Lau continuando com sua mentira descarada, agora para ela. Só não queria dar na cara que o único motivo que o levou até lá tinha nome, bochechas grandes e não fazia ideia de quem ele era.
- Ah, sim... – O suspiro aliviado foi inevitável e ela até riu com o curto medo que sentiu antes. – Fale do seu projeto. – Começou a caminhar em direção à própria mesa, demonstrando para que ele a seguisse.
- Bom... – Precisava pensar rápido, não imaginou que ela pediria assim logo de cara. Ela nem perguntou o meu nome. Quem fala com os outros sem perguntar o nome? Se ao menos me perguntasse, talvez lembraria. Pensou ele. – Eu preciso criar um protótipo de um novo foguete. – Mentira. – Para uma amostra e preciso de fotos para um banner e tal. – Mentira de novo. Ainda bem que ela não olhava pra ele ou perceberia logo ao olhar em seus olhos que era tudo uma grande farsa. Hyerin se sentou em frente a uma mesa simples, com duas grandes câmeras fotográficas e inúmeros papéis em cima e estendeu a mão para que ele se sentasse em uma das cadeiras a sua frente.
- Hum, entendi. – Retirou um notebook de dentro da mochila e colocou-o sobre a mesa, ligando-o. – E quando é essa amostra? Você já tem o protótipo pronto?
- Na verdade não, nos informaram desse trabalho no começo da semana. – Olha só, outra mentira. Coçou a nuca e encarou os próprios pés. – É pra entregar no fim do mês, é metade da nota.
- Sei, sei, compreendo. – Ela encarava a tela do computador, um documento com várias datas e anotações. – Olhe, estou livre nas quartas e quintas à tarde. Nós podemos fazer as fotos aqui no estúdio de Crawford mesmo, lá no segundo andar. Mas se você tiver outro lugar em mente...
- Não, não. – A cortou e logo depois se deu conta disso e pediu desculpas, ela apenas riu. – Onde você achar melhor, eu... não entendo nada de fotografia.
- Certo então! – Pegou um papel e anotou o próprio número, entregando ao rapaz. – Quando o protótipo estiver pronto, me avise e combinaremos o dia das fotos. – Henry encarou o papel maravilhado, tinha sido assim tão fácil? Mas ela sequer sabia o nome dele, muito menos quem era ele. Talvez a garota fosse só uma ótima profissional e ele ali, criando esperanças.
- Certo, pode deixar. – Um sorriso pequeno estava no canto dos lábios do rapaz. – Acho que no fim da próxima semana já esteja pronto. – Mentiu de novo. Daria um jeito de ligar pra ela o quanto antes.
- Qual o seu nome, mesmo? Só pra eu anotar aqui na agenda e tudo mais. – Perguntou e o encarou. Henry sorriu mais largo ainda e prendeu as mãos entre as pernas, atitude clássica de quando estava muito ansioso.
- Henry Lau. – Respondeu convicto, até meneou a cabeça em positivo. Hyerin digitou o nome do rapaz e salvou o documento. Logo depois semicerrou os olhos e o encarou curiosa. Aquele nome... ela se lembrava dele, mas não de onde. Conhecia aquele rapaz, mas... de onde? Henry umedeceu os lábios, nervoso. Sua teoria era válida, o mesmo que aconteceu consigo, estava prestes a acontecer com ela. E, se a garota ainda tivesse o raciocínio lento, demoraria cerca de dez segundos ou mais para associar.
- Desculpe, mas... seu nome me parece familiar. Nós nos conhecemos? – Perguntou, mesmo que estivesse receosa sobre a pergunta. O lábio inferior foi mordido. Henry repetiu o gesto, para evitar um sorriso.
- Jardim de infância, turma da Tia Annie. Bom, nós... – Ele riu e baixou o olhar, encarando os pés e sentindo patético. Muito patético. – Éramos o casal 20 da sala. – Coçou a nuca novamente, não acreditando que usou um termo tão inútil como “casal 20”. Hyerin semicerrou os olhos ainda buscando em sua memória alguma referência ao que ele havia dito. Cinco segundos e seus olhos se arregalaram com a vaga lembrança do jardim de infância, a escola, a professora. Henry riu e continuou aguardando. Cinco segundos mais tarde as mãos da garota estavam em seu rosto, escondendo a boca que no momento se encontrava entreaberta por conta da surpresa. É, ela ainda é meio lerdinha, pensou ele.
Hyerin não fazia a mínima ideia de que estava diante do seu ex-futuro-namoradinho de infância. Não notou nada de familiar no rapaz antes, nem mesmo quando ele a encarou de maneira tão esquisita com um brilho diferente nos olhos. Como poderia ser tão lerda? É claro, aquele par de bochechas, ela deveria ter ligado os pontos. Ou talvez não fosse tão culpada assim, não sabia do nome dele logo de cara. Talvez, se tivesse perguntado antes, teria percebido.
- AI MEU DEUS. – Ela praticamente gritou, recebendo os olhares das pessoas ao seu redor, Henry riu de novo. – Claro! Por isso você estava me encarando daquela forma estranha e eu toda assustada. – Hyerin começou a rir e as mãos voltaram ao rosto, era surpresa demais. – Quanto tempo que a gente não se fala, uns vinte anos?
- Dezesseis. – Corrigiu ele e a garota pensou seriamente se ele estava ali só pelo trabalho.
- Caramba... – Ela riu e apoiou o cotovelo na mesa, tendo os olhos fixos no rosto dele. Henry contradizia toda aquela frase “Criança bonita, adulto esquisito”. O garoto era extremamente adorável e encantador quando criança e agora não era pra menos. – Olha só pra você, tem até músculos! – Ela riu e seus olhos se tornaram dois pequenos tracinhos, o coração de Henry falhou uma batida. Adorava aquele eyesmile quando tinha seis anos e agora não seria diferente.
- Pois é! Olha só pra você, seios! – Disse totalmente sem pensar e quando se deu conta disso tornou-se completamente vermelho. A garota riu, pelo visto ele era o mesmo Henry que dizia as coisas sem pensar. – Quer dizer, não que eu tenha olhado muito, mas... é...
- Henry, você tá vermelho. – Não perderia a oportunidade, não mesmo. Por mais que fossem completos estranhos agora, já que não sabiam praticamente nada um do outro, mas toda a situação era completamente engraçada.
- Você tinha que comentar, né. Obrigado. – Ele rolou os olhos e riu, sentindo-se um pouco mais relaxado, apesar da vergonha. Engraçada a forma que todos aqueles anos pareciam inexistentes. Conversavam como se aquela diferença de tempo fosse um nada.
- Você tem aula agora? – Mudou o assunto drasticamente e Henry se viu confuso. –  Meu turno aqui acabou e eu ‘tô indo almoçar. Se você quiser a gente podia... – Hesitou, suspirando tímida.
- O almoço é por minha conta. – Sorriu tendo o largo e belo sorriso dela de volta.
Ambos se levantaram e Hyerin pegou suas coisas, informando a quem estivesse próximo que já estava de saída. Henry não conseguia manter sua felicidade guardada e por isso, algumas risadas lhe escapavam do nada, fazendo a garota encará-lo e rir sem entender o que se passava. Ambos mostraram suas credenciais ao homem mal encarado, Henry deixando seu cartão com ele – só lhe era permitido um por visita. A recepcionista o viu sair e se preparava para chamar sua atenção até notar a presença da fotógrafa ao seu lado. Fechou a cara de novo e pensou que teria sido melhor negar a informação.
- E então cara, você encontrou com... – Era Peter que o esperava na entrada e só se deu conta que falaria besteira quando percebeu a presença da garota ao seu lado. – E aí moça, tudo bem? – Sorriu com a cara-de-pau que já era sua marca, estendendo a mão para a garota apertar. Henry negou com a cabeça.
- Oi. – Respondeu aos risos, apertando a mão do garoto. – Você também tem um projeto pra fazer? – Peter a encarou confuso e Henry fazia movimentos de “sim” atrás dela, com uma expressão que dizia “Pelo amor de Deus, concorda com isso.”
- Sim, tenho! O projeto dos... dos... O projeto, pois é! – Sorriu forçado e bagunçou os cabelos. – Eu não te conheço de algum lugar? – Mudou o assunto com a primeira coisa que lhe veio à cabeça, cruzou os braços.
- Ué, você também era da turma da Tia Annie? – Hyerin pendeu a cabeça.
- Ah, claro! Como eu pude esquecer isso! – O tom era tão falso, mas tão falso que se algum diretor de cinema passasse por ali, prenderia Henry por péssima atuação. – Peter, essa é a Hyerin! Nós três estudamos juntos no jardim. – Sua expressão para o amigo era de “Continua com a mentira, infeliz”. Já Peter só queria rir alto, muito alto.
- CLARO, ‘cês eram namoradinhos naquela época, né? Eu lembro. – Alfinetou, é claro. Henry bateu na própria testa e Hyerin riu alto.
- Aquilo era quase um ensino médio mirim, né. E pelo visto nós éramos o casal que todo mundo invejava. – Ela riu novamente e Henry sorriu ao ouvir as palavras “nós” e “casal” saírem da boca dela de forma tão natural. Peter prendeu o riso. – Quer ir almoçar com a gente também?
- E atrapalhar os pombinhos? Eu não. – Deu de ombros e colocou as mãos nos bolsos. Henry estava vermelho de novo.
- Peter, cala a boca. – Rolou os olhos e empurrou o amigo que riu alto. – Nós estamos indo, tá? Depois eu ligo pra você pra falar do projeto lá. – Praticamente empurrou o amigo na direção contrária que iriam, fazendo-o rir ainda mais.
Caminharam em direção à uma das praças de alimentação da faculdade, conversando sobre qualquer coisa que Henry puxou como assunto, a fim de fazê-la esquecer Peter e seus comentários desnecessários de outrora. Conversavam sobre aquela época, tentando unir suas poucas lembranças das aulas e vez ou outra, alguns risos bobos tomavam conta dos dois. Chegaram a um restaurante de comida caseira e fizeram seus pedidos, sentando-se enquanto aguardavam que o almoço chegasse. Em meio a conversa, Henry retirou o celular para enviar uma mensagem para sua mãe, avisando que não almoçaria em casa. Anteriormente, senhora Lau seria contra a falta do garoto, mas ao ler quem almoçaria com ele, um sorriso bobo adornou seus lábios. O pedido chegou e a refeição se seguiu animada, ambos contando de seus respectivos cursos, matérias complicadas, coisas do ensino médio, alguns micos e coisas do gênero. Logo, a comida já não existia em seus pratos, mas continuavam a conversar animadamente sobre qualquer coisa.
- Mas então, quando você vai me contar o verdadeiro motivo que te levou até o NCI hoje? – Hyerin perguntou totalmente aleatória e Henry arregalou os olhos e tossiu.
- Do que você está falando? – O tom era fraco, coçou a nuca. – E-eu fui pelo projeto.
- Henry... – A garota riu apoiando os cotovelos na mesa e o queixo nas mãos. Sua expressão era bastante divertida. – Eu trabalho no jornal da Universidade. Você tem certeza que eu NÃO saberia caso houvesse uma exposição de projetos? Mesmo sendo de Engenharia? – Um sorriso vitorioso adornou os lábios dela e Henry se viu perdido. Muito perdido.
Poderia ser menos burro e ter pensado numa desculpa melhor.

(Continua...)

Diagramador¹: Responsável pela “estética do jornal”; arruma e organiza textos e fotos nos cadernos.
Pautas²: Ideias/temas de matérias e reportagens.

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4 comentários

  1. AI THI POSTA LOGO O OUTRO CAPÍTULO >:
    Estou morrendo de curiosidade aqui, poxa.
    Peter é meu personagem favorito, sem nenhuma dúvida! <3

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    1. OLHA MAIS UMA DO FANCLUB DO PETER AHUAHUAH eu amo quando essas coisas acontecem, sério. Peter surgiu como um personagem secundário e acabou tomando o espaço dos principais HAHA

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  2. Cara, eu já estava ficando tímida pelo Henry.. que aflição quando essa menina fica encarando os olhos dele kkk
    Tenho que dizer, das suas versões da Hyerin essa é minha favorita, pq ela gosta da folia. Vendo o menino lá se desdobrando em pretextos, certa ela de levar adiante bancando a desentendida.. e deixar pra revelar num momento oportuno, olhando pra cara dele e ver a ficha caíndo.. bem dessas x]
    Aah, sem falar que ela ainda convidou Peter. Rpz, se eu fosse ele aceitaria o convite (só pra dar aquele desespero de leve no Henry) mas acabaria desistindo antes de chegar lá, claro..rs

    p.s.1: me sentindo menos noob na área pq eu já sabia o que é um diagramador \o\

    p.s.2: O hiatus de net por aqui cessou hj /o/ (por hora.. mas é preciso aproveitar caminhando e cantando)

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    1. Diz aí, a pessoa chega agora e já vai encarando os olhos do menino, coitado, eu também fiquei apreensiva HUAHUAH E SIM, ESSA MINHA HYERIN É UMA MARAVILHOSA! Ela ama uma treta, rapaz, sabendo que o jovem tava mentindo e deixando seguir o bonde pra ver até que ponto ele iria prosseguir com a lie HAUAHAUHA rainha, né.
      Amiga, Peter é zoeiro, mas existem limites. Ele também não ia zoar com a cara do amigo a esse ponto, principalmente porque o outro já estava suando de agonia HUAHAUH Henry é uma pessoa muito intensa x)

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