– THE COFFEE BEAN & TEA LEAF

21:35

Capa por Eloanne Cerqueira
         Era fim de tarde e ele terminava de subir as escadas de saída do metrô com a mochila pesada em suas costas e a bolsa do violino em uma das mãos. Respirou fundo e suas pálpebras caíram levemente, estava cansado. Muito cansado. Não imaginou que viver em um lugar completamente diferente do que estava acostumado seria tão difícil. Sua mãe lhe avisou, é claro, mas é óbvio que ele não ouviu. Mães, por que tão certas sempre? Com muita insistência, seus olhos abriram e a primeira coisa que ele avistou a sua frente foi uma cafeteria. Fome ou sede não eram coisas que perturbavam o rapaz no momento, mas a The Coffee bean & Tea Leaf era sua única saída. Talvez alguém ali tivesse a boa vontade de lhe informar como chegar em seu apartamento, porque sinceramente, ele não sabia como fazer isso.
         Cursar música na Coreia sempre fora um sonho na vida de Henry. Mesmo crescendo no Canadá e tendo toda a facilidade que precisava em seu país, ele queria ir para o outro lado do mundo onde a vida de artista parecia ser as mil maravilhas. Whiteney, sua irmã mais nova sempre lhe mostrava inúmeras apresentações de grupos coreanos e o interesse pelo ensino superior daquele país só aumentava no garoto. Os grupos de k-pop eram realmente muito bons e ele tinha talento para ser bom também. Então por que não juntar seu próprio talento com um ensino maravilhoso? Tinha tudo para dar certo, pelo menos na teoria. As primeiras semanas no novo país foram as mil maravilhas. Logo que se instalou, resolveu ir a praça ao lado de seu fiel cachorro, little Henry – criatividade para nomes nunca foi o seu forte – apenas para um passeio. Seu animal de estimação era realmente muito bonito o que chamava a atenção das meninas que passavam e as faziam ir acaricia-lo. Todo cheio de marra, o rapaz as cumprimentava em seu idioma de origem, o inglês, deixando as pobres moças deslumbradas e um Henry confiante. “Viu só, mãe? Eu disse que seria uma boa me mudar para cá”, pensava ele em uma resposta aos sermões que recebeu quando inventou essa mudança.
         Mas as aulas começaram e com elas vieram as dificuldades. Os professores da Universidade de KyungHee eram extremamente exigentes, fazendo seus alunos treinarem mais que o habitual para que notassem uma melhoria. Inúmeras foram as noites que ia dormir revisando partituras de seu instrumento e várias as broncas que ouvia dos vizinhos do prédio pelo barulho. Na primeira avaliação semestral, Henry apresentou um concerto maravilhoso que conseguiu aplausos de pé dos colegas de classe, mas seu professor apontou tantos erros que o fez fechar a cara ali mesmo, no palco. Conseguiu 85% da nota, mas ainda assim não era o bastante. Naquele dia em questão escrevera uma música durante a aula e fora pego pelo professor. Sr. Kang rasgou o papel em meio a uma gritaria na sala de aula, alegando que estavam ali para aprender notas e compassos, não a escrever rimas de namoricos de criança. Irritado, saiu da sala sem dizer nada, pegando o primeiro metrô que viu ao chegar a estação sem se dar ao trabalho de notar para onde iria. Talvez fosse xenofobia da parte do professor, pensava ele e então finalmente se deu conta de que não sabia para onde ia. Perguntou de que estação se tratava ao homem que estava ao seu lado e ouvindo um nome que não fazia ideia do que significava, levantou as pressas, descendo na parada mais próxima.
         O estabelecimento era bem simples e bastante aconchegante, o rapaz até se sentiu menos tenso só de adentrar ali. As paredes tinham um tom claro e diversos pôsteres de artistas locais, reconhecendo alguns dos grupos como favoritos de sua irmã. As mesas estavam todas ocupadas por casais – que Henry julgou extremamente sem-graça, talvez fosse o mau humor –, e então resolveu se sentar em frente ao balcão. Retirou a mochila das costas, colocando-a sem muito cuidado no chão, o que gerou olhares em sua direção. Revirou os olhos, depositando com um cuidado exagerado a bolsa que carregava o violino ao lado da outra. Poderia ser o pior dia da sua vida, nunca trataria seu tesouro de um jeito ruim.
         - Olá cliente! O que você deseja? – Uma voz doce e bem agradável perguntou do outro lado do balcão.
         - Achar o caminho de casa seria o mais urgente. – Disse ele sem olhar a atendente, arrancando uma risada baixa da moça.
         - É comum estrangeiros se perderem, não é? – Henry arregalou os olhos. Apesar de canadense, seus olhos puxados eram herança chinesa e poderiam passar facilmente despercebidos em meio a toda população de olhos puxados naquele país. Ou aquela garota era vidente ou ele estava dando muito na cara que era um completo perdido.
         - Como você... sabe? – Perguntou finalmente olhando na direção da garota e seus olhos se abriram ainda mais. Ela era um pouco mais baixa que ele, ou pelo menos parecia ser. Os cabelos eram castanhos e aparentemente longos, já que mesmo amarrados em um rabo de cavalo estavam pouco acima dos ombros. Pequenos óculos arredondados adornavam seu rosto e tinha os olhos ainda menores, pois voltava a rir da pergunta feita.
         - Você tem sotaque. – Deu de ombros e apontou para a própria boca, fazendo Henry se sentir um idiota. Além de perdido, irritado com o professor, extremamente longe de casa, ainda tinha pagado de idiota na frente de uma menina bonita.
         - Ah... é isso. – Suspirou e torceu os lábios, fazendo a atendente rir novamente e esconder o riso com uma das mãos. Atitude que o garoto julgou bem... fofa. – Então... – Encarou o pequeno crachá preso a blusa da menina, se sentindo ainda mais constrangido por passar tempo demais. Por que símbolos coreanos são tão... coreanos? – Hyeran, né?
         - Hyerin. – Corrigiu ela, rindo mais abertamente da cara de derrotado que ele fez com a correção. – Não se preocupe, muitas pessoas costumam errar assim. – Era uma completa mentira, mas decidiu tentar confortá-lo daquela maneira. Ele não pareceu acreditar muito, mas o sorriso pequeno que surgiu em seus lábios a agradou.
          - Pelo menos eu não sou burro sozinho. – Deu de ombros e então se ajeitou na cadeira, pra pelo menos tentar não dar mais nenhuma mancada. – Eu vou querer um café puro e grande, vamos ver se assim eu acordo.
 A garota assentiu e saiu, não demorando nem um minuto para voltar com uma grande caneca e coloca-la sobre o balcão em frente a ele, fazendo um sorriso pequeno surgir nos lábios dele novamente. Como em qualquer outra situação como aquela, Hyerin colocaria a jarra do café de volta ao seu lugar e faria outra coisa longe do cliente em questão, já que não era educado continuar ao seu lado. Porém, naquele momento ela queria poder ajuda-lo em seu problema, ou simplesmente conversar para que pudesse animá-lo. Já Henry, sabia que se puxasse assunto com ela iria parecer só mais um estrangeiro tentando tirar vantagem das coreanas, e não era bem isso que ele queria. Ela tinha sido simpática e não era só porque deveria ser. Ela estava sendo agradável porque ela era agradável. E bastava só isso para que quisesse falar ainda mais com ela.
- Onde você mora? Talvez eu possa te ajudar a voltar pra casa. – Era notável o receio na voz dela, mas se ele demonstrasse desconforto ela apenas se desculparia e sairia dali.
         - Suo-gu. – Disse ele convicto, sorrindo pequeno com a caneca rente aos lábios. Talvez ela não pudesse perceber, mas ficou aliviado por não ter que implorar por sua ajuda.
- Seo-gu, você quis dizer. – Voltou a rir, agora um pouco mais alto. Era engraçada a forma que ele tentava pronunciar as coisas. O rapaz soltou um gemido em reclamação o que a fez apoiar-se no balcão e rir de maneira contida, não queria que ele pensasse que estaria zombando dele. – Você veio de metrô, não é mesmo?
         - Eu ia perguntar como você sabe, mas lembrei que o burro aqui sou eu. – Foram suas palavras antes de mais um gole de café.
         - Yah, não diga essas coisas! – Percebeu então que desde a hora que o rapaz chegou, ela não havia parado de rir. O quão boba ela poderia ser? – Você só se atrapalhou na estação e veio parar em Wonmi-gu.
         - Eu vim parar onde? – Achou aquele ‘yah’ dito por ela algo realmente engraçado. Já tinha ouvido outras pessoas dizer aquilo, mas só nela havia sido... engraçado.
         - Wonmi-gu. – Ela notou que o café dele já estava terminando e foi até a cafeteira, despejando um pouco mais na caneca. Henry agradeceu por isso, mesmo que não tivesse se pronunciado, iria pedir um pouco mais.
         - De qualquer forma eu não sei pronunciar isso. – Deu de ombros e ela voltou rir, se apoiando no balcão com ambos os braços. Hyerin pensou em uma coisa, mas imaginava que poderia soar como uma atitude ruim. Porém já estava ficando tarde e ele poderia se perder de novo se ela só explicasse.
         - Eu também moro em Seo-gu. – Foram suas palavras depois de um longo suspiro. Henry parou e arregalou os olhos, só podia ser ação divina. Ele se perde, vai parar em um lugar com nome de cachorro coreano, encontra uma garota bonita e ela mora no mesmo bairro que ele? Só podia ser brincadeira. A garota suspirou e vendo que não haveria comentário dele, continuou. – E se você quiser, eu posso...
         - ... Levar o estrangeiro burro até o lugar que ele precisa ir. – A interrompeu, completando sua frase e os dois abriram sorrisos largos, o que gerou aqueles risinhos bobos.
         - Vou ser liberada em meia hora. – Só então desfez o contato visual, afastando-se do balcão e voltando a ficar de pé.
         - Espero todo o tempo do mundo. – Voltou a beber do seu café, o qual estava bem mais quente do que ele pensou, desviando o olhar para que não parecesse um idiota.

         Logo mais alguns clientes chegaram e foi necessário que Hyerin deixasse o garoto de lado por alguns instantes. Henry pôde notar que ela era sempre agradável com as outras pessoas, mas não tanto quanto havia sido com ele. Algumas vezes os olhares se encontravam e a atendente desviava envergonhada fazendo o canadense rir. A meia hora chegou ao fim e após trocar o uniforme e pegar o casaco, a garota se despediu das colegas, saindo do estabelecimento ao lado do estrangeiro que até agora ela não sabia o nome e se sentia muito tímida para perguntar. Seguiam até a estação de metrô mais próxima ao lado um do outro e depois que os comentários sobre a cafeteria se cessaram, um silêncio constrangedor se fez presente. Henry pensava em como era burro o suficiente por não pensar em nada decente para puxar assunto e Hyerin pensava de alguma maneira para perguntar o seu nome sem parecer uma boba. Mas logo chegaram a estação e a garota passou a lhe explicar por onde deveria ir e o que fazer caso se perdesse de novo.
         O horário não era lá o mais propício para que estivessem confortáveis no metrô, muito pelo contrário, as cabines estavam tão cheias que poderia ser difícil até para respirar. Hyerin se segurou – da maneira mais leve possível para não incomodar – no braço do estrangeiro, tentando não se perder e também porque era baixa demais para alcançar o apoio da parte de cima. Ao notar isso, Henry achou mais viável passar o braço pela cintura da garota, assim ela se sentiria mais firme – E ele, é claro, poderia afastar o olhar de qualquer cara ali que olhasse pra ela –, de início a garota julgou ser desnecessária a atitude alheia, mas logo depois notou que era mais confortável daquela maneira.
         - Bom, basicamente é só isso que você precisa fazer. – Disse Hyerin ao fim de sua explicação sobre estações de metrô e pontos de ônibus. Já tinham chegado em Seo-gu e agora caminhavam até os prédios e condomínios.
         - Amanhã eu não vou lembrar nem o nome daqui do bairro. – Resmungou ele, fazendo-a rir pela milionésima vez naquele dia.
         - Não seja tão pessimista. – Ao dizer isto, a garota parou. Estavam em frente a um longo prédio em diversos tons de verde. – Eu moro aqui. Pelo que você me falou, o seu apartamento é no prédio no final da rua, não é?
         - É sim senhora. – Sorriu ele meneando a cabeça e concordando com a sua fala. Ela era muito esperta, e ele muito burro. Julgou ser uma ótima combinação. – Posso recorrer a você sempre que eu me perder?
         - Só se você disser o seu nome. – Hyerin julgou aquela oportunidade como a melhor para a sua dúvida, e de fato realmente foi. O garoto se sentiu um completo idiota, como poderia esquecer daquilo?
         - Ah... nossa! Me desculpe, eu sou Henry. – O sorriso em seu rosto era o mais tímido que ele já tinha mostrado e provavelmente estava vermelho. Argh, idiota. Estendeu uma mão para ela e a outra coçava a nuca rapidamente.
         - Hyerin. – Deu ênfase no final de seu nome, lembrando-se do erro cometido por ele anteriormente. Apertou sua mão ligeiramente, adornando o mesmo sorriso tímido no rosto. – Agora eu preciso ir, desculpe.
         - Não, tudo bem. Eu já te aluguei demais por um dia só. – E volta aquele risinho bobo em ambos tornando o momento ainda mais infantil do que já estava antes. – Obrigado e descanse. – O rapaz achou que tinha se curvado suavemente, porém tinha sido completamente exagerado o que a fez rir.
         - Não se perca de novo. – Ela sim curvou-se de maneira leve e então seguiu para a entrada de seu prédio. Henry a observou caminhar e então deu as costas, colocando as mãos em seus respectivos bolsos e indo em direção ao final da rua, para que pudesse ir pra casa.
         - Henry! – A ouviu gritar e então se virou um tanto curioso, o que ela teria esquecido?
         - 715. – Sorriu de forma contida e usou da cabeça para apontar o prédio. O rapaz sorriu largo e assentiu com a cabeça, mandando uma piscadela para a garota que riu uma última vez, antes de finalmente entrar no prédio.

         Estaria lá no dia seguinte assim que fosse para a faculdade, nem que ele inventasse uma desculpa que havia esquecido como ir até KyungHee ou que queria comprar qualquer coisa em qualquer loja de Yasi-golmok Street, mas ele apareceria. 

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2 comentários

  1. Que Amorzinho de fic!!!!!!!! Sossss
    Muito agradável de ler, e os personagens são muito adoráveis❤
    Quem diria que de "um café e um chá" resultaria em algo tão doce assim, mas nem tão meloso ou enjoativo. Dá até aquele gostinho de querer mais, não deixaria de cogitar em pedir por uma continuação sobre a história desses dois! 😍
    Como sempre, Thilinda sempre sabendo nos encantar com suas escritas ❤♡

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    1. Mas que menina mais linda, você! ❤
      Obrigada, fico feliz em saber que o fato ser fluffy demais não tenha deixado o texto enjoativo. E é verdade, você me disse no fb que por mais HyerinxHenry que tenham nesse blog, a cada texto eles parecem outros completamente diferentes!
      Muito obrigada, sua linda! ❤❤

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