ALICE IN HORRORLAND

07:20

Capa por Eloanne Cerqueira

I.
14 de Maio de 1993 

- É complicado... – Disse o rapaz, encarando a parede atrás dela, já que sabia que não iria conseguir encará-la. As mãos foram levadas até os bolsos de sua calça, sendo colocadas confortavelmente ali. Virou então o corpo de forma leve, para que dessa forma a mulher saísse de seu campo de visão. Sabia que ela estava chorando e seu coração doía por ser a razão de tal choro.

            - Complicado? É complicado assumir publicamente o que nós temos? – Fechou os olhos com força, fazendo com que pesadas lágrimas caíssem dali. Os braços foram cruzados contra o próprio corpo e seu rosto exibia uma expressão irritada e ao mesmo tempo indignada com as ações do rapaz. – É assim tão complicado enfrentar os seus pais, Eddrick? – Encarava as costas do até então namorado com certo rancor. Novas lágrimas caíam de seus olhos e então uma das mãos subiu até o próprio rosto, limpando-as brutalmente. Era completamente apaixonada por ele, mas aquilo que estava acontecendo era demais para ela.

            - Alice, você não os conhece... – O rapaz levou ambas as mãos até os próprios cabelos, bagunçando-os com certa força. A situação do seu ponto de vista era mais complicada do que Alice imaginava. Virou-se para ela novamente, segurando-a pelos ombros. – Você não compreende! Eu preciso de tempo, essas coisas não...

            - Quer saber, que se dane. – Retirou as mãos do rapaz de seu corpo com brutalidade, fazendo-o suspirar pesadamente. O que ele estava fazendo era o mesmo que negá-la.  – Que fique com eles, então. Essa coisa às escondidas pra mim já deu. – Enxugou novamente as lágrimas em seu rosto, pegando todos os seus pertences e saindo dali. O rapaz apenas suspirou pesado mais uma vez, esmurrando a parede mais próxima. Queria de todo seu coração que Alice entendesse. Amava-a mais do que ela imaginava, mas assumi-la era algo que precisaria de tempo. Decidiu então que esfriaria a cabeça para que depois fosse atrás dela.

            A garota caminhava aos tropeços, mal enxergando a rua a sua frente. Não queria que terminasse daquela forma, afinal, era completamente apaixonada por ele. E seis meses juntos não eram qualquer coisa. Parou, limpando o rosto mais uma vez e suspirando pesadamente. Pensou em voltar lá e se desculpar, mas estava certa e não voltaria atrás em sua decisão. Por que ele não entendia o quão ruim aquele relacionamento ‘por debaixo do pano’ era para ela? Já tinha preocupações o suficiente e agora seu pai suspeitava de algo. Enquanto Alice lutava mentalmente consigo mesma, uma figura até então desconhecida aproximava-se dela. A jovem encarou a tal pessoa com os olhos arregalados, tentando entender o porquê de estar ali.

            - Como você me achou aqui? – Disse ela, engolindo seco. Piscou os olhos algumas vezes, em sinal de nervosismo.

            Poucas horas depois, Alice foi encontrada morta em um beco sem saída, nas proximidades do local que estava com Eddrick. Atingida no peito por uma bala de uma arma calibre 38, sendo esta não encontrada. Sem digitais, sem arma do crime, sem testemunhas. Desta forma, os policiais declararam o caso como encerrado, alegando ter sido uma tentativa de assalto seguida de assassinato.
Dias atuais

            Era um dia comum, como qualquer outro. A única diferença eram os telefones da central da homicídios que insistiam em tocar, fazendo com que Lily suspirasse e fechasse os olhos por alguns instantes. Trabalhava como detetive naquele departamento havia algum tempo, mas ultimamente andava cansada disso tudo. A ‘magia’ de resolver crimes parecia ter acabado. Talvez pelo fato de a cidade ter sido tomada pelas drogas e seu trabalho virar uma perseguição a adolescentes drogados. E por isso, pensava delicadamente em pedir aquelas férias que recusou no ano anterior. Quando finalmente abriu os olhos, deu de cara com seu parceiro de trabalho, Scotty, encarando-a com diversão nos olhos. Não que tivesse algo de engraçado, mas era curioso o fato da única mulher naquele setor estar se cansando do seu trabalho, quando esta era conhecida por amá-lo com a sua vida.
          - O quê? – Perguntou ela, ajeitando-se em sua cadeira, fazendo com que Scotty se encostasse de leve na mesa da parceira, cruzando os braços.

            - Chegou pra você. Sem remetente. – Scotty brincava com o pacote nas mãos, porém não demorou muito para que Lily o arrancasse rapidamente dali, fazendo o rapaz rir baixo.
            Sem dizer uma palavra, a moça abriu o envelope com rapidez, encontrando uma foto de uma garota sentada em um banco qualquer. Virou a fotografia, encontrando a seguinte frase no verso: “Não foi um assalto”. Lily olhou para Scotty procurando respostas e o mesmo deu de ombros, fazendo com que a detetive voltasse sua atenção para o envelope. Lá, encontrou também um pedaço de jornal, no qual mostrava a morte de uma garota vítima de assalto. Pelo pouco que observou, e por mais que a foto do jornal estivesse um pouco embaçada, se tratava da mesma garota.

            - O que é isso? – Perguntou ela, encarando a foto com cuidado.

            - E eu que sei? – Scotty moveu-se o mínimo para que também pudesse ver do que se tratava. – Veja, o jornal é de 1993. Por que alguém iria nos enviar um caso de vinte anos atrás e que já foi fechado? – Scotty agora encontrava-se ao lado de sua parceira, analisando aqueles dois pedaços de papel. Olhou de relance para Lily e vendo o brilho em seus olhos, sorriu. Pelo que parecia, a magia havia voltado.

            - Talvez o boss saiba de alguma coisa. – Antes mesmo que seu colega pudesse responder, Lily já caminhava em passos rápidos, indo em direção a sala de seu superior.

            -  Alice Kyle, eu me lembro desse caso. – Disse Daniel, encarando ambos os papéis os quais Lily lhe entregou. – Eu ainda era um estagiário quando isso ocorreu. Mas por que a pergunta? – O mais velho tirou os óculos de seu rosto, gesto o qual sempre fazia quando interessado em alguma coisa.

            - Enviaram esses papéis hoje mais cedo, endereçados a Lily. Só não entendemos o motivo, o caso já não foi resolvido? – Scotty recostou-se sobre um dos armários da sala de seu chefe, cruzando os braços.

            - Bem, eu não diria resolvido. – Daniel levantou dali, colocando ambas as mãos nos bolsos e caminhando devagar pelo recinto. – Não tínhamos provas ou testemunhas suficientes para continuar o caso. A tentativa de assalto era a ideia mais plausível para aquele momento, já que o lugar onde o corpo foi encontrado não era lá dos melhores.

            - Boss... – Lily levantou dali rapidamente, fazendo com que o mais velho parasse de caminhar e Scotty voltasse sua atenção para ela. – Peço permissão para reabrir esse caso. – Daniel franziu o cenho e Scotty encarou-a incrédulo.

            - Por que o interesse? Aconteceu há vinte anos, não faria sentido reabrir esse caso agora. – Scotty levantou-se de onde estava indo em direção da mulher.

            - Por que quer reabrir esse caso, Lil? – Perguntou Daniel, analisando o brilho nos olhos da policial. Lembrou-se de quando aquela mulher ainda era uma estagiária, recebendo piadinhas e cantadas baratas dos outros colegas. Tinha orgulho de como Lily havia crescido profissionalmente ali, e sabia que ela era uma das melhores naquela delegacia.

            - Um assassino continua sendo um assassino independente de quanto tempo tenha se passado desde o crime. Creio que não foi à toa que me enviaram isso. E tenho certeza que a família dessa garota precisa de respostas. – Lily disse firme, fazendo com que um sorriso pequeno surgisse nos lábios de Daniel. Scotty observou a cena um tanto incrédulo, já que para ele era loucura demais, outras coisas necessitariam de atenção ali.

            - Permissão concedida. – Os óculos foram deixados sobre a mesa e então, Daniel caminhou para fora daquele lugar.  – Acho bom descobrir o que aconteceu naquele dia, Lily. – Lançou um último olhar para a mulher que agora exibia um sorriso largo e então saiu.
            - Você é louca. – Scotty, inconformado com o que acabara de ver, levou uma das mãos até a nuca, acariciando o local de forma rápida, um hábito nele.

            - Não é a primeira vez que ouço isso. – Piscou de forma rápida para o parceiro, já iniciando passos para fora dali. – E ande logo, já que você vai me ajudar a achar a caixa desse caso. – O rapaz suspirou, odiava entrar naquela sala com inúmeras e inúmeras caixas de casos e mais casos.

 II.

- Os policiais daquela época não poderiam pensar em algo melhor? Aqui diz que nenhum dos pertences da garota foi levado, o que descarta totalmente a ideia de assalto. – Disse Lily enquanto lia a ficha daquele caso. Scotty agora estava sentado sobre o chão, remexendo os outros arquivos daquela caixa. Lily havia feito ele procurar  nos lugares mais altos e empoeirados daquele lugar. Estava ciente que teria troco depois, mas não ligava.

- Veja, nenhuma marca de agressão ou violência. – O rapaz analisava as fotos da cena do crime e mais alguns papéis do laudo médico. Parou em uma das fotos da garota, analisando-a rapidamente. – Garota bonita.

- E jovem! 20 anos de idade. Cursava história na Universidade St. Patrick, melhor aluna do segundo período. – Pegou mais alguns papéis e os analisou. – O único a depor foi o namorado na época, Eddrick Avis.

- Algo de útil? – Perguntou Scotty levantando dali com alguns papéis nas mãos.

- Estava com ela horas antes do crime, mas ele tinha um álibi. Segundo autópsia a garota foi morta por volta das 20h, Eddrick foi visto chegando em seu apartamento às 19h30min. Porteiro do condomínio e dois vizinhos confirmaram isso. – Lily suspirou. Sabia que seria difícil, mas achava que ao abrir aquela caixa, algumas respostas viriam.

- Não custa nada ouvi-lo de novo, vinte anos não é qualquer coisa. – Scotty tirou a caixa do colo da mulher, ajudando-a a levantar-se dali.

- Vou procurar esse cara e você verifique os registros e encontre os pais ou algum parente de Alice. Avise-os que reabrimos o caso e queremos ouvi-los. – O rapaz assentiu com a cabeça e ambos deixaram o local, indo para suas determinadas mesas, fazer aquilo que pretendiam.

****

- Por que reviver essa história agora? – Eddrick, agora com alguns fios brancos e marcas da idade no rosto, perguntava a Scotty enquanto era levado até a sala devida para que fosse interrogado. – Já não acham que eu sofri demais?

- Nos enviaram uma carta, afirmando não ter sido o que alegaram e resolvemos reabrir. Por favor, conte tudo que se lembrar. – Disse ele ao fechar a porta, e assim que Eddrick sentou-se ali, Scotty encostou-se a pequena mesa, cruzando os braços e encarando o homem. Pôde notar um pequeno chapéu especifico em seus cabelos, muito comum em uma determinada religião.

- Lembro-me de tudo, infelizmente. – O homem suspirou pesadamente, apoiando ambos os braços sobre aquela mesa. Enquanto isso, na sala vizinha, Lily estava parada, também de braços cruzados, observando pelo vidro o depoimento de Eddrick.

- Como pode ter percebido, eu sou Judeu. Naquela época eu não encarava a vida como hoje, entende? Cursava administração, para que depois cuidasse dos negócios do meu pai, e quando fui transferido para a St. Patrick, a conheci. – Um sorriso pequeno pôde ser visto nos lábios de Eddrick, fazendo-o suspirar.

Os rapazes de administração conversavam animadamente em frente ao bloco onde estudavam, quando algumas alunas dos cursos de licenciatura passaram por ali. Eddrick, que conversava com um dos seus colegas, parou totalmente o assunto, ficando fascinado pela beleza de uma delas.

- Ei, o que foi? – Disse ela um tanto rude, fazendo-o acordar de seu transe e rir.

- Nada. – Sorriu ele, aproximando-se um pouco mais daquela garota. Esta cruzou os braços e rolou os olhos diante daquela aproximação, fazendo o rapaz imitá-la.  - Que curso você faz? – Perguntou ele, analisando o rosto daquela garota, como nunca a viu antes?

- História. – Sorriu de forma leve. Pensou até em não dizer nada e sair dali, mas o que ela teria a perder? Ele era bonito, alto, e pelo lugar onde estavam deveria cursar administração ou economia. Só rapazes de bem cursavam aqueles cursos.

- Bloco A, terceiro andar. – Eddrick sorriu vitorioso pela descoberta e a garota só riu, rolando os olhos. Saber o local onde uma pessoa estuda é a coisa mais óbvia do mundo, ainda mais se tratando do bloco de licenciatura, que era bastante conhecido.

A garota então saiu dali como se nada daquela conversa fosse importante e Eddrick ficou ali parado, tentando entender porque esta não continuou o assunto. Ele era assim tão estranho? Abriu a boca para falar mais alguma coisa, porém a garota parou, virando-se levemente para ele.

- Alice Kyle. Sala 57 de segunda a quarta. – Mandou uma piscadela para ele, virou-se e saiu ao lado das colegas.
Scotty sabia que aquilo não era de tanta importância para a investigação, mas também sabia que era um direito daquele homem. Pelo tom de voz que usara ao falar dela, era notório que mesmo após vinte anos, ainda a amava. Scotty então se levantou dali, caminhando devagar por aquela sala pequena, parando ao lado de um grande espelho – que, é claro, na sala vizinha era apenas um vidro, dando total visão de Eddrick aos presentes.

- Conte-me o que aconteceu naquele fatídico dia, Sr. Avis. – Mais uma vez o detetive cruzou os braços, apoiando-se na parede.

- Como eu disse, eu sou judeu. E naquela época a religião pra mim era só estar nos cultos como um bom rapaz ao lado dos meus pais. Como pode perceber pela sua ficha, Alice era uma garota comum. – Eddrick estava nervoso, reviver aquilo tudo parecia tortura-lo. O homem sentiu os olhos lacrimejarem e então moveu as mãos rapidamente, tentando esconder que o que aconteceu naquela noite o incomodava.  – Estávamos juntos há seis meses, às escondidas, é claro. Naquele dia Alice estava magoada, cansada de ter que ficar se encontrando em lugares desertos. Ela queria assumir publicamente, mas eu era covarde demais para enfrentar meus pais e a religião. – Lágrimas já rolaram de seus olhos, e assim Eddrick levou uma das mãos até o próprio rosto, na tentativa de reprimi-las. – Ela saiu irritada, gritando que estava tudo acabado. Decidi que iria atrás dela quando esfriasse a cabeça, minha pior decisão. Quando a vi novamente, estava dentro de seu caixão.

Scotty continuou calado, virando o corpo rapidamente e ficando de frente para o enorme espelho. Encarava seu reflexo um tanto preocupado, mas na verdade, sua intenção era encarar Lily, que o observava pelo vidro, como a mesma expressão. O depoimento de Eddrick batia exatamente com o que ele havia dito, vinte anos antes. Estavam no zero, novamente.

- Onde vocês se encontravam, Eddrick? Era próximo ao lugar onde ela foi encontrada? – Disse após alguns segundos, deu um tempo para que o homem se recuperasse, afinal, não havia sido fácil para ele contar aquilo tudo novamente.

- Sim, era. – Eddrick meneou a cabeça, em sinal de positivo. – Duas ruas antes. Poucas pessoas moravam ali, a maioria era depósitos de fábricas. Raras eram as pessoas que circulavam ali.

- E os seus pais? Eles não sabiam de nada, ou desconfiavam? – Scotty arriscou um palpite.

- Está insinuando que meu velho pai tocaria em Alice? – Eddrick encarou o detetive com rancor, mas logo abaixou o olhar. – Meu pai era muito duro, mas não teria coragem de fazer isso. E além do mais, só ficaram sabendo após a morte de Alice, quando eu decidi depor.

- Mas me responda, Sr. Avis... – Scotty sorriu de canto, indo em direção a cadeira e sentando-se ali novamente. – Por que um lugar tão deserto? Vocês poderiam se encontrar em um lugar mais seguro, sem serem vistos. – Lily sorriu ao ouvir aquela pergunta. Era por essa razão e adorava ter Scotty ao seu lado.

- Naquela época, minha única preocupação era não ser descoberto pelo meu pai. Achamos que ali, por ser de certa forma perto da universidade estava de bom tamanho. Alice chegava cedo, um horário calmo. Mesmo que saísse tarde, raras eram as vezes que ela não saía comigo. – Eddrick suspirou pesado, se sentindo a pior pessoa do mundo. De certa forma, na concepção dele, a culpa era completamente sua. Havia falhado em protege-la, ficando em dívida com ela.

- E por que justamente no dia em que ela saiu completamente irritada dali, foi justamente o dia em que ela foi assassinada? Suspeito, não acha Sr Avis? – O detetive levou a mão até o queixo, apoiando o rosto ali. Eddrick olhava para baixo, e ao ouvir aquilo, sentiu o sangue ferver.

- Está insinuando que eu faria mal a Alice? Rapaz, você não sabe o que está dizendo. – O mais velho se levantou irritado, batendo o punho com força naquela mesa. Scotty riu baixo, e Lily sorriu de canto. Talvez Sr. Avis devesse explicar o motivo de se irritar tão rápido.

III.

-  Eu ainda acho que ele não fez nada. – Lily comentava enquanto se dirigia até sua mesa, sendo seguida pelo seu parceiro.

- Eu achei aquela atitude dele um tanto suspeita. Nenhum inocente se irrita tão rápido com uma simples pergunta. Ainda aposto minhas fichas no Eddrick. – Como era de costume, encostou-se a mesa de Lily, cruzando os braços e voltando sua atenção para ela. A moça suspirou, sentando-se em sua cadeira e relaxando ali. Fechou os olhos, tentando pensar algo que fosse de útil para aquela investigação.

- Não há nenhum vizinho, nada? Nenhum morador daquela rua ou bairro? – Lily empurrou alguns papéis de sua mesa, largando-se sobre ela irritada. A sede de resolver aquele caso só aumentava, porém as formas para fazê-lo só diminuíam. Ouviram a mãe de Alice, mas nada tão importante que fosse de grande ajuda.

- Eddrick disse a verdade. Até hoje aquele lugar ainda são só fábricas. Se alguma pessoa morou ali naquela época, é provável que tenha se mudado. Hoje aquela rua é um dos principais pontos de drogas da cidade. – Scotty largou os papéis sobre a mesa, irritado de igual forma. Mesmo que fosse contra a reabertura desse caso, agora estava contagiado pela mesma sede de Lily, mas as coisas só pareciam piorar.

- E o pai dele, alguma informação? – Perguntou Lily e Scotty pegou outros documentos que estavam sobre a própria mesa.

- Israel Avis, dono de uma das melhores joalherias da cidade, coisa de judeu. Tem um álibi. Viajou naquela semana para negócios, chegou apenas em 16 de maio, dois dias depois do assassinato de Alice. Empresa aérea confirmou. – Largou os papéis sobre a mesa novamente, e Lily suspirou.

- Faça uma pesquisa sobre aquele lugar e descubra o morador mais antigo. Se as ruas eram tão desertas assim, a presença de um casal tão apaixonado quanto Eddrick alega que eles foram antes da briga, alguém os teria notado. – Lily empurrou os papéis de volta para o parceiro, fazendo-o rolar os olhos. A mulher riu.

- E a senhorita folgada, vá em busca de registros da faculdade e encontre alguma colega da vítima. Não jogue todo seu trabalho pra mim. Lembre-se, a ideia foi toda e inteiramente sua. – Empurrou a cabeça da mulher de forma leve, fazendo-a repetir seu gesto e rolar os olhos. Foi a vez de Scotty rir.

- Tá, tá. – Moveu a mão rapidamente, indicando que o colega deveria sair dali. Ao que este finalmente saiu, suspirou e pegou o telefone, ligando para a Universidade St. Patrick, a procura de mais algumas informações.
*****

- Daniela Castillo. – Scotty adentrou o local com um sorriso vitorioso nos lábios e alguns papéis nas mãos. A atenção de Lily fora voltada para ele, e esta o encarava confusa.

- O quê? – Levantou-se de imediato, indo até o colega e retirando os documentos de suas mãos, lendo-os rapidamente.

- Daniela Castillo, a mais velha moradora daquele bairro. Vive ali desde 1986, morando a apenas cinco casas de distância do local onde Eddrick e Alice se encontravam. – Scotty levou as mãos até os próprios bolsos, ainda com aquele sorriso nos lábios. Lily riu da ‘modéstia’ do rapaz, jogando os papéis sobre a mesa. De fato, era orgulhosa por tê-lo como parceiro, afinal, era bastante competente.

- E o que estamos esperando para ir vê-la? – Lily já arrumava algumas coisas em suas devidas pastas, e Scotty guardava os papéis que a parceira jogara sobre a mesa.

- Você pegar seu casaco. – O rapaz virou-se e passou a caminhar para fora dali, sendo seguido de Lily que ria do parceiro. Pegou o casaco que estava ao lado da porta junto dos demais casacos dos colegas, e saíram rumo à casa da mais nova testemunha. Ou pelo menos era o que eles queriam.

Não demorou muito para que chegassem até o local desejado e Lily observava o local com cuidado, tentando imaginar como seria ali no ano de 1993. A própria Lily, naquela época, não se passava de uma criança, com seus onze anos de idade. Nem pensava em ser o que era hoje. Na verdade, seu sonho de infância era ter uma fazenda. Como eu era boba, pensava ela.

- O que desejam? – Uma senhora com fortes marcas de idade e cabelos não mais da cor que nasceram, abriu a porta um tanto receosa, sem entender o porquê daquelas pessoas ali.

- Olá, sou Scotty Valens e essa é minha parceira, Lily Rush. Somos da homicídios. – Ambos mostravam seus distintivos, como era de costume sempre que estavam em trabalho.

- Ai meu Deus, encontraram o meu neto? – A senhora agora demonstrava uma expressão triste e surpresa, levando uma das mãos até o peito, assustada.

- Não, não é nada a ver com o seu neto. – Lily se pronunciou rapidamente, tentando que a senhora ficasse mais calma. – Estamos aqui por causa de um assunto antigo. A senhora reconhece essa garota? Alice Kyle, o seu nome. – Mostrou a foto que recebera dois dias antes. Forçando os olhos, a mais velha encarou a foto por alguns instantes, sorrindo de forma leve ao se lembrar.

- Mas é claro, como esquecer a única pessoa que alegrava esse lugar imundo? Entrem, entrem! Contem-me o que querem saber. – Deu espaço para que os detetives entrassem, e ambos sorriram preocupados com aquilo. Era ótimo que a mulher a conhecesse, porém esperavam que fosse algo de útil dessa vez.

- Essa garota era um anjo. Uma pena o que aconteceu com ela. – A senhora proferiu no momento em que se sentou, de frente para os detetives.

- Ela apenas passava por aqui e a cumprimentava, ou conversaram algumas vezes? – Foi a vez de Scotty perguntar, enquanto Lily pegou o velho bloco de anotações e sua caneta, afim de guardar o depoimento daquela senhora.

- Oh não, nós conversávamos bastante. Desde que ela e o namorado começaram a se encontrar aqui. Muitas foram as tardes que nós três ficamos conversando, era um casal adorável.

- A senhora acredita que Eddrick tenha machucado Alice? – Scotty perguntou enquanto Lily analisava os detalhes daquela casa, encontrando alguns bolinhos sobre a mesa ao lado da estante.

- É claro que não, meu jovem. Aquele rapaz era tão apaixonado que chegava a ser bobo. A última coisa que ele queria era vê-la machucada. – Daniela encarava o casal com pesar, falar daquele ocorrido lhe deixava triste.

- No dia que ela faleceu vocês se encontraram? Notou algo de diferente em Alice? – Foi a vez de Lily se pronunciar, entregando o caderno para que Scotty anotasse, para que dessa forma sua atenção fosse voltada para a mulher a sua frente.

- Não, naquele dia não a vi. Porém, mais ou menos uma semana antes eu a encontrei sim, sem o namorado. Parecia preocupada com alguma coisa.
Daniela estava na calçada de sua casa, retirando o lixo que estava amontoado em sua garagem. Reclamava da vida, pois todos os dias era a mesma coisa, aquele lixo que o vento trazia daquelas fábricas se juntava em sua casa e a mulher não tinha a quem reivindicar. Quando esta terminou o seu afazer, percebeu uma figura feminina tão conhecida vir em sua direção. Rapidamente apoiou aquela vassoura próximo ao portão de sua casa, indo rapidamente de encontro a mais jovem. Quando esta notou sua presença, sorriu de forma leve, tentando esconder a preocupação em seu rosto.

- Alice, minha querida. – Daniela levou ambas as mãos até o rosto da mais jovem, acariciando de forma leve suas bochechas.

- Olá, senhora Daniela. – Disse a moça, sem o ânimo que a mais velha esperava receber. A senhora encarou-a um pouco pensativa e então levou ambas as mãos agora de encontro a uma das mãos da garota.

- O que houve, minha querida? Você e Eddrick estão com problemas? – Passou a caminhar para dentro de sua casa, sendo acompanhada pela moça, que não protestou.

-Não não, Eddrick e eu estamos ótimos! – Ela sorriu só de pronunciar o nome do namorado. – São outros problemas, um outro rapaz apareceu.

- Oh não, você está confusa em relação ao que sente? – Encarou a mais nova preocupada e esta apenas riu baixo, mas Daniela esperava um pouco mais de ânimo naquela risada.

- Claro que não, Daniela! Que bobagem. – Alice se sentou no largo e simples sofá daquela senhora, sendo acompanhada da dona da casa. – É o rapaz que está interessado em mim. Já deixei bem claro que não quero nada com ele, mas John insiste em vir atrás de mim. – A garota suspirou e Daniela passou a acariciar sua mão novamente.

- Ora, fique tranquila minha querida! Isso vai passar logo. – Sorriu para ela, e logo aquela conversa foi encerrada, pois Eddrick estava na porta, e logo se juntou em um papo animado com as duas mulheres.

- John? – Perguntou Scotty, virando o rosto para encarar Lily, o brilho em seus olhos estava mais forte do que antes. Finalmente algo estava surgindo.

- É a única coisa que eu sei meu rapaz. Devo dizer que quando soube do que aconteceu com ela, pensei que esse garoto teria algo a ver. – A velha senhora suspirou, unindo as próprias mãos sobre seu colo. – Mas os policiais disseram que foi um assalto, e esse lugar sempre foi perigoso o suficiente. Então despreocupei.

- A senhora não tem nenhum sobrenome? – Perguntou Scotty, recebendo um menear em sinal de negativo como resposta.

 - Obrigada pelo seu depoimento, senhora Castillo. – Todos naquela sala se levantaram, e os detetives apertaram a mão da velha senhora.

- Espero ter ajudado, e se caso descobrirem o que realmente aconteceu, por favor, me avisem. – Ambos sorriram de forma leve para ela, deixando aquele local.

- Ligue para o Vera e mande-o contatar Eddrick e descobrir se existia uma relação entre ele e esse John. – Disse Lily, já retirando seu celular e discando um número bastante conhecido. Vera era um de seus colegas de trabalho o qual sempre era ‘alugado’ pela dupla.

- E você, para quem está ligando? – Scotty encarava a mulher com diversão nos olhos. Mesmo que estivesse acostumado, sempre se surpreendia com a vontade de resolver tudo logo que ela tinha. Principalmente quando algo novo acontecia.

- Melanie Fox, melhor amiga de Alice. Parece que o depoimento de sua mãe serviu para alguma coisa. Se esse John estava na cola dela, é óbvio que sua amiga saberia. – Sorriu para o colega e, falando ao telefone, ambos seguiram até o carro.

IV.

- Nenhum John na lista de conhecidos do Eddrick. – Vera adentrou a sala, fazendo Lily suspirar ao ouvir suas palavras. – Na faculdade existiam zilhões de John’s naquele ano. Preciso de um sobrenome. – O homem baixo deu de ombros, deixando aquele lugar.

- Conseguiu falar com a tal Melanie? – Scotty analisava mais fotos de Alice, se a conhecesse e tivesse idade suficiente, com certeza teria chegado nela. Entretanto, era apenas um garoto quando aquelas fotos foram tiradas. E hoje, ela não existe mais.

- Consegui. E estou aqui esperando ela dar as caras. Só espero que ela apareça. – Lily rolou os olhos, jogando-se sobre sua cadeira e cruzando os braços. Aquilo já estava ficando chato. Por que as coisas não podiam acontecer na hora que ela queria? Aquela demora estava matando-a por dentro.

- Então acho que ela te ouviu. – Scotty usou do queixo para apontar uma mulher de no máximo 39 anos, adentrando aquele lugar. Lily rapidamente levantou de onde estava, ajeitando-se e indo em sua direção.

- Melanie Fox? – Perguntou ela apenas por formalidade, estendendo a mão para a mulher. Esta sorriu.

- Lily Rush, certo? – Retribuiu o sorriso, apertando a mão da detetive que acenou com a cabeça em sinal de positivo. – Fiquei espantada quando você me avisou que voltaram a investigar o caso da Alice. – Sorriu fraco, abaixando a cabeça. Tanto tempo havia se passado, e parecia que havia sido ontem.

- Vamos fazer algumas perguntas, responda tudo que se lembrar, tudo bem? – Foi a vez de Melanie menear a cabeça em positivo. Sendo assim, Lily guiou sua testemunha até a sala de interrogatório, seguindo-a. Scotty se dirigiu até a sala vizinha, onde era a sua vez, ao lado de seu chefe, de observar aquele depoimento. Ao chegarem lá, Melanie sentou-se, sendo seguida por Lily, que se sentou em sua frente.

- O quão amiga você e Alice Kyle eram? – A detetive apoiou os braços sobre a mesa, encarando a mulher ali presente com seriedade.

- Inseparáveis. – Melanie apoiou ambas as mãos sobre a mesa, unindo-as ali. Abaixou a cabeça e pensou alguns segundos, suspirou. – Alice me contava tudo que acontecia com ela. E eu sempre guardei seus relatos.

- Alguma vez ela mencionou um rapaz chamado John? – Lily foi direta e a mulher arregalou os olhos, apertando os próprios dedos, Lily sorriu de canto. – Sabemos que ele estava interessado nela, mas ela não queria nada com ele. O que você sabe sobre isso, Melanie Fox? – A mulher engoliu seco, fazendo com que os olhos da detetive brilhassem, algo sairia dali.
- John Coleman sempre fora apaixonado por Alice. Desde o 1º período da faculdade. Estudava Letras, dois andares acima do nosso. Sempre foi gentil com ela, jogava indiretas e tudo mais, porém ela nada correspondia. Não era de se esperar que ele se apaixonasse, Alice era linda. Alta, cabelos ondulados e um sorriso maravilhoso. – Melanie parou novamente, a imagem da melhor amiga veio a sua mente, seus olhos lacrimejaram. – No inicio do segundo período, Eddrick foi transferido para a nossa faculdade e não demorou muito para que ele e Alice começassem a sair.

- Qual foi a reação de John? Vocês eram próximos? – Lily agora ajeitou-se melhor naquela cadeira, o assunto estava ficando cada vez mais interessante.

- Ele ficou furioso. Espalhava para todo o bloco de licenciatura que Alice ainda seria dele. Mas nós não éramos próximos, ele só vivia no pé de Alice.

- Alguma vez você o viu ameaçando sua amiga? – A detetive notou que as mãos de sua testemunha suavam. Mais uma vez, seus olhos brilharam.

- Ver, eu não vi. Mas ela me contou uma coisa estranha dias antes de ser assassinada. 
- Mel, eu não sei mais o que fazer. – Alice usou um tom baixo, já que estavam na biblioteca e os demais presentes poderiam reclamar do barulho.

- Alice, o que está acontecendo? Você está pálida. – Melanie levou uma das mãos até a mão da amiga, segurando-a por ali na tentativa de acalmá-la.

- John! – A garota fechou os olhos com força, demorando um pouco para abri-los. – Essa semana tive a impressão que ele me seguiu até em casa, e não foi só uma vez. – A garota suspirou pesadamente, o que fez sua amiga apertar sua mão de forma leve.

- Alice, você deveria falar aos seus pais, esse garoto é estranho, e além do mais...

- Está louca? Eles me obrigariam a mudar de universidade, e eu não quero isso. – A garota puxou um pouco mais a amiga para perto de si, abraçando-a como fosse possível, já que estavam sentadas em cadeiras separadas. – Eu estou com medo, Mel. – Pelo voz rouca, Melanie sabia que a amiga estava chorando. Resolveu então que nada diria, não sabia o que falar. Passou os braços pelo corpo da amiga, tentando consolá-la. Não demorou muito para que ela se acalmasse, e seguissem para as aulas que ainda teriam naquele dia. Na semana seguinte iniciariam as atividades pontuadas e Alice não teve tempo de conversar com a amiga de novo.
- E é só isso que eu sei. – Melanie suspirou e Lily sorriu. Sabia que aquilo resultaria em algo interessante.

- Obrigada pelo seu depoimento, Senhora Fox. – Ambas levantaram-se dali, e Lily a guiou até fora daquela sala, logo, guiando-a para fora também daquele departamento. – Não se preocupe te deixarei informada de tudo.

- Fico eternamente grata, detetive Rush. Alice era muito importante pra mim. – A mulher sorriu para a Lily, deixando o local. Detetive Rush sorria confiante e correu até a sala de Vera, adentrando o local com rapidez, assustando-o.

- John Coleman, estudante de Letras, turma de 1993/1. Agora você tem um sobrenome. – Piscou para o colega, fazendo-o rir, não só por sua atitude, mas também pelo susto que havia tomado.
******

- E então? – Scotty chegava com seis copos de café, um tanto cansado de ter andado toda a quadra a procura do café que ficasse ao gosto de Lily. Tentava agradar a colega, já que admirava muito o seu trabalho.

- Vera ficou de verificar o registro de John Coleman no sistema. Pela descrição de Melanie, é possível que este tenha passagem pela polícia. – A mulher levantou uma das mãos, guiando-as até a bandeja de cafés. Olhou para o colega, e este apontou para o último da primeira fileira, fazendo-a pegar seu copo rapidamente.

- E o que você está fazendo? Tá de bobeira fazendo nada? – Perguntou já rindo, sabia que a colega iria encará-lo com cara feia, já que ela odiava ficar ‘de bobeira’.

- É claro que não. – Olhou para ele séria, fazendo o rir ainda mais. –  Estava analisando o depoimento da mãe de Alice. Ela mencionou John e nós não notamos. – Bebericou um pouco do seu café, colocando o copo sobre a mesa. – Veja isso: “Ela andava preocupada com alguma coisa e certa vez um amigo dela veio até aqui. Alice o encarou assustada e quando perguntei se gostaria de entrar, ela disse que o mesmo já estava de saída.” Como deixamos isso passar? Provavelmente ele estava seguindo-a e aproveitou para tentar a confiança da mãe dela. – Encarou o colega inconformada, não acreditando que aquilo passou despercebido.

- De qualquer forma, se tivéssemos notado isso, não daria em nada, porque não teríamos o nome. – Scotty colocou seu café sobre a mesa de igual forma, levando uma das mãos até o ombro de Lily, apertando-o de forma leve. – Relaxa, Lil. Estamos chegando ao fim deste caso.

- Espero que esteja certo. – Suspirou a detetive, levando a mão para onde a mão de Scotty estava, dando leve tapinhas ali.

- Good News, my darlings. – Vera adentrou o local segurando alguns documentos, fazendo os colegas rirem da forma que falou.

- Sabia que você sempre parece gay quando chega falando seu inglês extremamente fluente? – Scotty alfinetou, recebendo uma caneta como resposta. – Ai, seu maluco.

- Cala a boca, Valens. – Vera rolou os olhos, fazendo com que Lily risse ainda mais. – Mas olhem. Verifiquei John Coleman na lista da polícia. – Jogou os papéis sobre a mesa, para que a dupla analisasse. – Preso em ’95 por atirar em um delinquente que invadiu sua casa. E adivinhem qual era a arma? – Sorriu vitorioso pela sua descoberta.

- Calibre 38. – Disseram Scotty e Lily em um uníssono, sorrindo juntos ao terminar de falar.

- Apreenderam a arma? – A mulher levantou de onde estava sentada, largando seu  copo de café ainda pela metade sobre sua mesa.

- Ai que está o problema. Antes que a polícia fizesse a apreensão, John deu fim a sua arma. Por sorte, o garoto era tão ruim quanto ele, e reconheceu  o modelo da arma de longe. – Disse Vera, puxando um dos cafés da bandeja que Scotty havia comprado. O rapaz pensou em reclamar, mas sempre comprava sobrando, então não se importou.

- Então ainda temos chance? – Lily encarou Vera com os olhos brilhando e este apenas bebericou seu café.

- Você sabe muito bem o que fazer, se é que me entendeu, Rush. – O colega piscou de leve para ela, fazendo-a rir.

V.

- John Coleman. – Lily fez questão de interroga-lo, só que Scotty também o queria. Dessa forma, ambos estavam naquela minúscula sala, e Daniel e Vera observavam através do vidro.

- Eu não fiz mal a Alice. – A aparência daquele homem poderia ter sido melhor. Os cabelos já não existiam e cicatrizes dominavam seu rosto. Lily rolou os olhos.

- Não é o que tudo indica. – Cruzou os braços e relaxou na cadeira a qual estava sentada. Scotty se aproximou dos dois, sentando-se de lado sobre a mesa, próximo a Lily.

- O que você estava fazendo naquela noite, John? – O detetive cruzou os braços.

- Em casa. – Respondeu movendo as mãos com nervosismo sobre a mesa, fazendo ambos os detetives rolarem os olhos.

- Com quem? Seus pais? – Scotty usou um tom de deboche e o suspeito meneou a cabeça em positivo.

- E onde eles estão agora? Não me diga que mortos? – Foi a vez de Lily usar o tom de deboche.

- Meu pai sim. Minha mãe ainda está viva, posso ligar para ela vir depor aqui, se quiserem.

- Sabe John, usar os pais para confirmar um álibi não é algo muito convincente. Afinal, os pais sempre defendem suas crias. – Lily ainda estava relaxada em sua cadeira, e o nervosismo de John Coleman só aumentava. A detetive ajeitou-se sobre a cadeira, aproximando-se um pouco mais do suspeito, encarando-o com intensidade.

- John, lembra-se daquele delinquente que invadiu sua casa em ’95? Nós o encontramos... – Scotty não se deu ao trabalho de olhar para a colega, apenas sorriu. Sabia que aquilo era um blefe, e Lily era ótima blefando. John ficou ainda mais nervoso e levou ambas as mãos até a cabeça, suspirando pesadamente.

- Estamos com aquela bala aqui. Interessante como as pessoas gostam de guardar essas coisas, sabe. – Scotty continuou naquele blefe, aproximando-se um pouco mais do suspeito. – Podemos muito bem compará-la a bala que atingiu Alice, em ‘93. E acredite, essa bala ainda esta aqui.

- Então você tem duas opções: Ou você nos conta o que realmente aconteceu naquele dia, ou você espera aqui sentadinho a gente comparar as balas e descobrir se as duas saíram do mesmo revolver. – Lily cruzou os braços, ainda encarando John com aquele brilho intenso nos olhos. O suspeito suspirou, mexendo as mãos que provavelmente suavam. Já havia sido preso, mas não sabia que policiais guardavam essas coisas. Talvez fosse realmente a hora de tirar aquele peso de suas costas.

- Eu nunca faria mal a Alice pela minha própria vontade.

John usava um grande casaco o qual cobria boa parte de seu rosto. Precisava que ninguém daquele lugar o reconhecesse para o que iria fazer. Não seria nada demais, apenas um susto para que aquele idiota do Eddrick deixasse seu caminho livre até Alice. Entretanto, antes mesmo de chegar ao local que iria, sua amada caminhava em sua direção com uma expressão triste e irritada no rosto. Rapidamente caminhou até ela, na tentativa de acalmá-la.

- Alice, o que aconteceu? O que aquele idiota fez com você? – Parou em sua frente abaixando um pouco o capuz para que ela o reconhecesse. Era torturante olhar para aqueles olhos e vê-los tão tristes.

- Como você me achou aqui? – A garota engoliu seco, piscando os olhos algumas vezes, em sinal de nervosismo. Naquele momento desejava nunca ter saído de perto de Eddrick. Sentia que aquela conversa não iria acabar bem. – John, pare com isso. Pare de me seguir, isso não é legal. – Desviou-se dele, tentando continuar o caminho até sua casa.

- Alice, volte aqui e me diga o que aconteceu. Por que você está chorando? O que ele fez? Eu já te disse, ele não é o cara certo pra você. – Continuou indo atrás daquela garota e esta rolou os olhos, irritada.

- John, não estou afim de conversar hoje. Eddrick não é tudo isso que você fala, ele é bem melhor que você. – Antes mesmo que pudesse pensar no que dizer, as palavras saíram de sua boca. Engoliu seco novamente, não deveria ter dito aquilo. Não sabia do que aquele garoto seria capaz. Já o rapaz, não podia acreditar naquilo que ouviu. Ela disse aquilo mesmo? Eddrick idiota Avis poderia ser melhor do que ele? Ela só poderia estar sonhando.

- Melhor do que eu? Ele chega do nada, te diz algumas boberinhas e você diz que ele é melhor do que eu? – Apressou o passo, segurando-a pelo braço. Por seu casaco ser grande, suas mãos não tocaram a pele de Alice, sendo impedida pelo tecido que o cobria. – Eu estava te conquistando desde a primeira vez que te vi e você fala que ele é melhor do que eu?

- John, me solta. – O medo já tomava conta da jovem e encarava o rapaz com mais lágrimas nos olhos. Seu único desejo naquele momento era que Eddrick aparecesse ali, correndo como sempre fazia quando brigavam. Mas por que ele não aparecia?  – Não era isso que eu queria dizer, eu...

- Repita. Fala de novo que ele é melhor do que eu. – Com a mão livre, o garoto puxou a arma que estava no bolso, fazendo a garota arregalar os olhos. Como esta nada disse, o rapaz passou a caminhar para um lugar mais deserto, levando a garota consigo. Ao chegar a um beco sem saída, empurrou a garota com força, fazendo com que esta quase caísse.

- John, se acalme. Me deixa ir pra casa, amanhã a gente conversa, abaixa essa arma, por favor. – A garota já chorava novamente, clamando para que o garoto se acalmasse. O garoto riu completamente sem ânimo. A raiva que sentia era tão grande que chegava a ser engraçada. Apesar de estar com outro, ele não esperava que Alice, sua amada, disse na sua cara que aquele homem era melhor do que ele.

- Como uma pessoa pode ser tão ingrata a esse ponto, ein Alice? Eu sempre estive lá, do seu lado. Esse idiotinha chegou do nada e você já foi toda pra ele. Ele nem te assume publicamente e você ainda chora por ele. – Uma das mãos passou sobre seus cabelos, com raiva. A outra ainda segurava a arma, estendida na direção da garota.

- John, eu não...

- Fale que me ama. – Disse por fim. Se ela não seria dele, que ao menos ele tivesse o direito de ouvir aquilo que sempre quis. A arma continuava apontada para ela, apenas para amedrontá-la. Do fundo de seu coração, ele nunca machucaria Alice.

- O quê? – Enxugou as lágrimas rapidamente, encarando-o confusa. Naquele momento ela teve certeza de que ele era louco. E se soubesse daquilo mais cedo teria evitado até o mais inocente dos “bom dias” que dera para ele.

- Fala que me ama e eu livro a tua cara, anda. – Mexeu a arma em sua direção, e assustada, a garota fechou os olhos. Pensava onde Eddrick estava naquele momento. Ele sempre voltava, não voltava? Ou aquela briga tinha sido tão intensa que ele agora não a queria mais? Burra, se não fosse tão egoísta, estaria ao lado dele, agora.

- John, se acalma, é melhor...

- Fala que me ama, sua ingrata. EU SEMPRE ESTIVE LÁ PRA VOCÊ.- Gritou, fazendo a garota se arrepiar de tanto medo que sentia. – Agora é a sua vez de retribuir.

- John... Por favor...

- FALA QUE ME AMA, ALICE. –  Ele tinha esse direito, não tinha? Eddrick já a tinha, por longos e insuportáveis seis meses, Eddrick já a tinha. Por que ele agora não podia ao menos ouvi-la dizer aquilo? Mesmo que fossem falsas, ele só queria aquelas palavras saindo da boca de Alice. No impulso, irritado da forma que estava, John teve um leve descuido e o gatilho daquela arma foi apertado. Uma última lágrima rolou dos olhos de Alice e naquele momento a garota caiu ao chão. Sem vida.

Assustado com o que acabara de fazer, John largou a arma ao chão, caindo ajoelhado ao lado de Alice. Encarou o corpo de sua amada sem acreditar no que acabara de fazer. Gritou seu nome algumas vezes, não obtendo resposta. Tão assustado quanto antes, recolheu a arma que havia jogado ali, colocando-a dentro do bolso. Ajeitou o enorme casaco sobre o próprio corpo e saiu dali, às pressas. Deixando a pessoa que ele alegava amar mais que a sua própria vida, perecer sozinha.

Lily largou-se naquela cadeira, não acreditando que finalmente ouvira aquilo que queria. Scotty encarou a colega, sorrindo de canto. Sabia que o mérito era todo dela. Ninguém batalhou tanto quanto ela, e nada daquele interrogatório teria dado certo sem o seu blefe. A mulher levantou daquela cadeira, virando-se para o grande espelho e sorriu. Daniel sorria do outro lado da sala, encarando Lily através do vidro com orgulho. No momento que ouviu aquele pedido para reabertura do caso, sabia que a mulher conseguiria. Scotty saiu daquele lugar, levando John algemado para fora dali. Lily foi em direção ao telefone, contatar a família de Alice, quem havia tirando-a de suas vidas.

 Era um dia comum, como todos os outros. A única diferença era a satisfação e realização presentes em Lily e Scotty. Nunca passou por suas mentes que resolver um caso de vinte anos atrás os deixariam tão completos. Era com satisfação que Lily escrevia a palavra “Fechado” na caixa do caso de Alice. Entregou esta para Scotty para que a colocasse dentre os outros inúmeros casos já resolvidos ali. Sorrindo um para o outro, deixaram aquele local.

Não muito longe dali, na casa onde um dia Alice viveu, sua mãe, mesmo que estivesse chorando, agora podia viver o resto dos seus dias em paz. Nunca acreditou que realmente tivesse sido um assalto, e não queria acreditar que Eddrick tivesse algo a ver com isso. Por mais que não o tenha conhecido, pelo sorriso que sua filha exibia ao falar dele, sabia que era um bom rapaz. Não demorou muito para que a campainha tocasse, e a velha senhora seguisse para abrir a porta, encontrando um Eddrick envergonhado ali. Quando este disse quem era, a mulher o encarou e imaginou o quão belo este não seria em sua juventude. Sorriu, sua filha realmente foi uma garota de sorte.

Convidou-o para que entrasse, e este já adentrou o local se desculpando pelo que, segundo ele, havia sido sua culpa. A jovem senhora negou com a cabeça e repousou uma das mãos em seu ombro. Disse aquele jovem rapaz que aquilo aconteceu porque deveria acontecer. Eles eram jovens, e dúvidas sempre apareciam, que ele não devia se preocupar com isso. O importante, é que agora, Alice Kyle poderia descansar em paz. Ambos sorriram, e a jovem senhora seguiu até a cozinha, para buscar bolinhos. Eddrick olhou rapidamente para o sofá e teve a impressão de tê-la visto. Sentada e concentrada em seus estudos, tão aplicada quanto era. Seu sorriso se alargou e uma pequena lágrima escorreu de seu rosto.

Eddrick tinha uma dívida com Alice, não pôde cuidar dela como havia prometido, mas agora, ele poderia tentar cumprir pelo menos a metade. Cuidaria de sua mãe. Seu pai já havia falecido, e Alice era filha única. Eddrick, agora sabia como consertar as coisas ao seu modo. Estaria ali para o que aquela senhora precisasse. E ele sabia, que se Alice estivesse ali naquele momento, estaria orgulhosa dele. E provavelmente sorrindo, o sorriso que ele tanto adorava.
FIM.

Leia Também:

4 comentários

  1. Que lindo ;-; só faltou Lilly e Scotty se pegando fdgklnfdkglndklgnkdflgndf super shippo.
    E quem foi o capeta que mandou a foto, pode me responder?? kkkk
    te amo <3 e volte a escrever presente de grego

    ResponderExcluir
  2. PÃOZITCHA LINDITCHA s23 de março de 2013 20:15

    QUE AMORRRRRRRR KLDFJLKÇJSDÇLKJFSLÇKJFÇLKSF curti mas achei que foi muito na cara que o John tinha matado ela, faltou mais 1 suspense ): tipo um provável álibi ou algo do tipo :3 qqqq
    mas curti a fic e gostei do Edd (intimidade bjs) indo cuidar da mãe da Alice no final ;;
    To shippando Litty e volte a escrever presente de grego 2 <33

    ResponderExcluir
  3. Terminei! FIM!!
    HAHHAHAHAHHA, sério, parabéns! Esse gênero é muito, muito, muuuuito difícil de se desenvolver.
    Sério, eu fico assistindo séries policiais e pensando no roteiro, nunca conseguiria passar pro papel.
    E poxa, pra sua primeira vez isso aqui ta ÓTIMO, de verdade!! Foi meio corrido, sim, mas poxa, se esse é o começo, imagina quando você investir no gênero!!
    Em busca da nossa fanfic juntas, viu? (e das que eu to te devendo :x)
    Beeeeijos <333

    ResponderExcluir
  4. Nossa, imaginei que a Lilly e o Scotty fossem ficar juntos. Tsc. Mas não liga, essa é a Jennifer que quer romance em tudo falando.
    Menina, eu gostei de verdade da fic. Como a Thay (ai em cima) disse, histórias policias não são fáceis de escrever. Os pontos tem que se ligarem e precisa de uma certa astucia. Eu já desisti faz décadas. haha
    Parabéns, é a sua primeira história desse gênero e só mostra que você tem bagagem pra continuar escrevendo histórias policiais.
    Ahh! Eu juro que pensei que o Eddrick poderia ser o culpado. E, sim, quem mandou a foto? Pensei que poderia ter algo tipo de ligação. HAHA
    Enfim, ficou ótimaaa!

    ;*

    ResponderExcluir

ATENÇÃO:

O conteúdo aqui postado é de responsabilidade de seus respectivos autores e fica proibida a reprodução de qualquer publicação sem o consentimento dos mesmos e/ou sem os devidos créditos, sendo considerado PLÁGIO.

ARQUIVO