BEGINNING AGAIN

09:17

Capa por Eloanne Cerqueira

Sentada em sua cama, olhava o céu que brilhava atrás do vidro da janela de seu quarto.  Pesadas lágrimas caiam de seus olhos e tentava inutilmente reorganizar seus pensamentos. Era até engraçado a forma como as coisas aconteciam. Uma atrás da outra, sem um intervalo de tempo para descansar. Sentia o coração doer todas as vezes que se lembrava de como ninguém se importava com ela e seus sentimentos. Não, não era uma desilusão amorosa por um rapaz, como você está pensando. Era bem pior que isso.  Era uma desilusão com praticamente todos a sua volta. Seus pais, irmã, parentes, amigos mais próximos. Todos, de um jeito ou de outro, magoaram e pisaram no coração dela. Das piores formas possíveis. Era como sentar-se de costas para uma infinita escada. Desconfortável, você se remexe na cadeira, e com um descuido, rola escada abaixo. E ali, sentada em sua cama, olhando o céu um tanto quanto embaçado por conta das suas lágrimas que ainda caiam, Valentina sentia como se não pudesse mais confiar em ninguém. Se perguntava por que tudo aquilo acontecia com ela. Por que não com outras pessoas? Ou pior ainda, por que não com ela mesma, mas com um intervalo de tempo em que ela pudesse respirar? Se perguntava o porquê dos céus deixarem que toda aquela carga emocional caísse sobre seus ombros. As vezes que comentava por alto com um conhecido sobre o que estava passando, ouvia sempre a mesma coisa. "Vai ficar tudo bem". O problema é que esse "vai ficar bem" estava demorando demais. Chegou até a acreditar que esse "bem" nunca existira. Abraçou suas pernas e soluçou. Lembrou-se então dele. De como o conhecera naquela tarde de quarta-feira na cafeteria da faculdade. Tinha ido comprar algo pra comer antes de ir para as aulas complementares de Legislação e Direitos Humanos. Ao se dirigir ao caixa, percebeu que tinha deixado a carteira em casa, e não tinha nenhum trocado em seus bolsos. Xingou-se mentalmente por isso. Percebendo o desespero dela, o rapaz puxou a conta de suas mãos, pagando pelo que a garota havia consumido. Valentina então olhou para ele sem entender o porquê daquilo, recebendo um simples sorriso de volta.
Descobriu que seu nome era Liam e que estudava no mesmo andar que ela. E ao contrário do que você pensou, não descobriu nada em comum com ele. Ela gostava de Nárnia, ele dizia que nenhuma saga superaria Star Wars. Ela era a garota das redes sociais, ele não gostava de se expor desse jeito. Ela gostava de dançar nas horas vagas, ele preferia passar a tarde jogando videogame. Mas por mais irônico que possa parecer, eles se deram bem, muito bem. E depois de muito tempo, Valentina se viu feliz de novo. E dessa vez, como você está pensando, eles se tornaram, de certa forma, inseparáveis. Ela ligava pra ele quando precisava de uma opinião sobre o que vestir para ir à faculdade. Ele ligava pra ela quando ia àquela cafeteria e lembrava-se dela. Entretanto, seu histórico de amizades a deixava de certa forma, receosa em relação a ele. Achava que, quando estivesse no melhor dos seus dias, descobriria que ele falara mal dela a terceiros, ou que zombava do seu jeito bobo de conversar sobre certos assuntos. Porém esse dia nunca chegava, e aos poucos, ele ganhava a confiança dela sem nem ao menos perceber. Numa tarde de sábado que eles resolveram sair para conversar, ela decidiu contar a ele sobre seu lado problemático e suas desilusões com as pessoas ao seu redor. Liam ouviu tudo atentamente, raramente piscava. E como era de se esperar, quando terminou de contar tudo, Valentina chorava e soluçava como uma criança que acabara de cair de bicicleta. Vendo-a daquele jeito, o rapaz não pensou duas vezes e a abraçou. Não estava nem aí se suas lágrimas molhariam a camisa dele. Ele só pensava que era mais do que sua obrigação protegê-la disso tudo.  Pensava como as pessoas podiam ser cruéis com uma pessoa como ela. Tudo bem, ela era difícil de lidar às vezes, ele bem sabia disso, quando por exemplo, ela estava irritada com os pais e tinha sido grossa com ele, mesmo ele não tendo feito nada. Mas nada justifica como as pessoas a tratam e de como pessoas podiam ser tão frias e tão falsas a esse ponto. Pensava também como uma pessoa tão relax como ela escondia tantas mágoas desse jeito. E se já não tinha motivos de sobra para admirá-la, isso só fez com que ele se sentisse ainda mais bobo em relação à ela. A garota, segundo os olhos de Liam, conseguia da forma mais natural possível, discernir suas emoções. Ninguém precisava saber quando ela estava triste, afinal, eram sentimentos dela e só ela precisava saber. Surpresa com o ato repentino do rapaz, a única coisa que ela fez foi retribuir aquele abraço. E como você já deve suspeitar, ela chorou ainda mais como uma criança nos braços de Liam. O rapaz acariciava as costas dela, tentando acalmá-la. Mas ao contrário do que Valentina pensou, ele não disse as famosas palavras "Vai ficar tudo bem". Porque ele sabia que não ficaria. Ele sabia que as pessoas que mais a magoavam, eram as pessoas mais próximas a ela. E que, infelizmente, elas nunca parariam de magoá-la.
Depois daquele dia, Liam passou a tratá-la melhor. Elogiava a garota do nada, ou perguntava como havia sido seu dia, ou até mesmo, fazia algumas carícias que não eram comuns na amizade deles anteriormente. E assim, o garoto se viu apaixonado. Não que tenha sido algo ruim, de uma forma ou de outra, ele sabia que acabaria com aquele sentimento por ela. Não tinha como não despertar algo por Valentina. O problema estava no coração dela. Ele não sabia se estava preparado para ter em suas mãos um coração tão machucado. E acima de tudo, ele não queria ser o culpado por mais alguma mágoa dela. E assim, Liam guardou seus sentimentos por Valentina por longos e insuportáveis três meses. Inúmeras foram às noites que ele ia dormir pensando nela. Ela e seu largo sorriso. Ele então percebeu que já tinha passado da hora de tê-la só pra ele. Deixaria de ser um covarde e assumiria que a amava. Sim, amava. Ele não sabia como, ele não sabia por que, ele só sabia que a amava. Mais do que ele imaginava, e provavelmente, muito mais do que ela imaginava. Achava que de certa forma, os céus a colocaram na vida dele. Porque não existiam mais explicações razoáveis sobre o sentimento que nasceu em seu coração. Decidiu que no dia seguinte a convidaria para sair. Iria levá-la a cafeteria que se conheceram depois das aulas do turno matutino, e lá ele diria tudo que ele guardou nesses três meses. E pensando em inúmeras formas de dizer isso a ela, o rapaz adormeceu.
Já fazia dezessete minutos que ela estava ali, mas nada do garoto aparecer. Olhava o celular insistentemente, como se fazendo aquilo, faria o garoto se apressar. Bufou e largou o celular sobre a mesa, apoiando o rosto sobre uma das mãos, decidira entregar ao relento, e que o garoto chegasse na hora que bem entendesse. Não demorou muito, o rapaz surgiu entre as pessoas que por ali circulavam. Sentou-se de frente para Valentina, mas não olhou diretamente para ela. Suas mãos suavam. Seu coração estava à beira de uma taquicardia. Mas ele não iria desistir, não agora. A garota o chamou pelo nome, confusa com as reações do garoto, afinal, nunca o vira tão estranho como naquele dia. Liam respirou fundo e levantou o rosto, olhando-a nos olhos tão intensamente que surpresa com tal atitude, Valentina corou. Um pequeno sorriso brotou nos lábios dele e então, as palavras “eu te amo” saíram de sua boca. A garota chegou achar que era uma simples brincadeira, mas pelo tom de voz usado por ele, percebeu que era a mais pura verdade. O garoto disse mil e um motivos para se apaixonar por ela, mas ela não ouviu praticamente nenhum deles. Estava confusa, não tinha isso em mente. Não achava que pudesse despertar tal sentimento nele. Não olhava pra ele desse jeito, ou pelo menos ela achava que não. Ela não sabia o que pensar e então, fez o que o mais Liam temia. Pegou suas coisas, levantou e saiu. Deixando um Liam largado, angustiado, confuso, e apaixonado na cafeteria.
E ali, sentada em sua cama, olhando o céu um tanto quanto embaçado por conta das suas lágrimas que ainda caíam depois de se lembrar de tudo aquilo que passara ao lado dele, e de como o garoto havia sido a única pessoa que ela pode contar nos últimos meses, Valentina percebeu que também era apaixonada por ele. Percebeu que seu coração acelerava só de pensar nele. Percebeu que era com ele que ela sonhava. E percebeu, acima de tudo, que era dele que ela precisava. Se xingava mentalmente pelo fato de ter saído correndo mais cedo daquela cafeteria e estragado tudo. Se não fosse uma idiota sentimentalista que chorava por tudo, talvez ele tivesse a chance de ouvi-la dizer que também o amava. Sim, amava. Achava que de certa forma, os céus o colocaram na vida dela. Não havia explicações para como ela se sentia bem perto dele. E de como ele fazia com que os problemas que ela tinha, sumissem como se nunca tivessem existido. Percebeu então que era hora de parar de chorar e ir atrás do que ela estava perdendo. Enxugou as lágrimas e foi até sua bolsa a procura do celular. Com a demora para encontrá-lo, virou a bolsa de cabeça para baixo, fazendo cair tudo que estava ali dentro, e então, encontrou seu celular. Pensou em uma mensagem de texto, mas demoraria demais para chegar, e consequentemente, para ter uma resposta. E o que Valentina menos queria nesse momento, era que as coisas demorassem. Rapidamente discou o número que ela já sabia de cor, e depois de três toques, um “alô” preocupado atendeu a ligação.
-Liam, onde você está? – Disse ela, rapidamente, já levantando e procurando pelas sapatilhas que usava antes de chegar correndo e tirá-las brutalmente dos seus pés.
- Bom, depois que você saiu correndo de lá... – Ele fez uma pausa e Valentina parou o que estava fazendo apenas para ouvi-lo. – Vim até a sua casa pra tentar falar com você, mas não tive coragem de tocar a campainha e estou na porta desde então. – Disse ele sincero, e então respirou fundo, se sentindo a pior pessoa do mundo. Valentina desligou o telefone largando-o em cima da cama, e descalças, seguiu rapidamente até a porta de sua casa.
Ainda sem entender o motivo de a garota ter desligado o telefone daquela forma, Liam olhou para cima e vendo a janela do quarto dela, fechou os olhos, querendo nunca ter dito aquilo. Tinha sido responsável por mais um machucado no coração de Valentina. Voltou a olhar a porta, depois olhou para o celular em sua mão. Decidiu então que iria desistir. Seria melhor ter ficado calado e continuar a sofrer por um amor, que agora, ele sabia que não era correspondido. Deu as costas para a casa de Valentina, quando ouviu a porta se abrir. Olhou para trás e a viu, com os olhos vermelhos e sorrindo para ele. O rapaz olhou confuso para ela, mas não teve tempo de raciocinar nada, pois Valentina correra em sua direção e o abraçou. O coração de Liam estava à beira de uma taquicardia mais uma vez, e ele não sabia o que fazer. Não entendia o porquê de ela ter saído correndo da cafeteria anteriormente, e agora, não entendia o porquê dela estar o abraçando. Mas não se importava. Tinha o corpo dela em seus braços e era isso que importava. Passou os braços pela cintura de Valentina, e afundou o rosto em seus cabelos. Ao sentir o perfume da garota, apertou seus braços em volta dela, como se tivesse medo que de uma hora para outra, ela resolvesse sair correndo de novo. A garota desfez o abraço, pousando suas mãos sobre os ombros de Liam. O garoto procurava respostas nos olhos de Valentina, e ela apenas o olhava rindo, de como havia sido burra de ter deixado o rapaz tão assustado daquela forma. Não pensou duas vezes, e ficando na ponta dos pés, a garota selou os lábios de Liam.
O garoto, ainda surpreso com a ação repentina de Valentina, tinha os olhos abertos, arregalados para dizer a verdade. Não entendia o que estava acontecendo, mas de uma coisa ele tinha certeza, nunca em seus sonhos os lábios de Valentina tinham um gosto tão bom quanto aquele que ele estava sentindo. Seus olhos se fecharam de imediato e suas mãos subiram pelas costas da garota. Passou a língua sobre os lábios dela, e sem hesitar, Valentina abriu a boca, dando passagem à língua de Liam. Choques elétricos passaram por ambos os corpos e os dois, tinham plena certeza, de que era feitos um para o outro. A garota subiu uma de suas mãos até os cabelos do rapaz, fazendo-o se arrepiar com tal carícia. Liam se sentia completo. Valentina se sentia completa. E pela primeira vez, a garota acreditava nessas coisas de a metade da laranja, cara metade e todas essas babozeiras que ela ouvia outras garotas falarem. Já ele, sabia que se sentiria bem quando a beijasse, mas não sabia que seria tanto. Sendo de certo modo exagerado, achava que se morresse depois daquele beijo, morreria sendo o cara mais feliz do mundo. Estava tão apaixonado que já estava sendo bobo. Mas ele não se importava de ser bobo, o que ele se importava era ela. Ela e nada mais. O beijo foi perdendo a intensidade, passando a ser pequenos selos depositados nos lábios um do outro. A interrogação ainda estava presente nos olhos de Liam, porém acompanhada de um belo sorriso. Valentina sorria analisando o rosto do rapaz e vendo o quanto ele era perfeito pra ela. Levou as duas mãos até o rosto dele, e então sussurrou: - Eu amo você.
Os olhos de Liam brilharam e o seu sorriso se alargou. Apertou os braços pela cintura de Valentina, e fazendo certa força, levantou-a no ar, rodando-a rapidamente logo depois, arrancando risos divertidos da mesma. Colocou-a no chão e abraçou tão forte que por um momento, ela achou que morreria de asfixia. Depois de muitos beijos e declarações vindas dele, Valentina pediu que o garoto se acalmasse e puxou-o pelo braço, para sentarem num banco muito conhecido pelos dois, o qual passavam inúmeras tardes jogando conversa fora. Valentina sentou-se primeiro, puxando o garoto para sentar-se ao lado. Liam passou o braço pelos ombros dela, entrelaçando sua mão a dela. Já Valentina, encostou a cabeça no peito dele, sentindo as batidas fortes do seu coração.
Agora tudo ficará bem.
         -Você disse alguma coisa? – Perguntou ela, olhando confusa para o rapaz.
         -Eu não! – Respondeu rapidamente, ainda mais confuso que ela. A garota então ignorou, devia ser apenas coisa da sua cabeça.
         A partir de agora, tudo ficará bem. Eu prometo!

         Foi então que ela percebeu que não era Liam que estava falando. Era um timbre diferente, mas que era um tanto familiar a ela. Agora ela tinha certeza de que era realmente ele o rapaz certo para ela, e que os céus havia enviado ele para ela. Olhou para cima e nunca tinha visto em toda sua vida um céu tão azul e tão brilhante, sorriu. A voz que ela ouvira, não era Liam, ou coisa da sua cabeça. Eram os céus confirmando que agora, ela podia descansar. Que a partir de agora, toda e qualquer angustia presente no coração dela, deixaria de existir. Aquela voz significava que a partir de agora, tudo ficaria bem, porque ele estava ao seu lado. E que independente do que as outras pessoas fariam para ela, ele nunca a magoaria. Porque o amor que ele sentia por ela, era do mesmo tamanho que o céu. E não era à toa, que os próprios céus o escolheram única e exclusivamente para ela.


FIM

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